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Você sabia que era negro quando criança?

Eu não sabia. Mas é claro que fui uma criança negra. Mas só vim ter consciência sobre esse fato quando adulta. No ambiente familiar eu sempre fui moreninha queimada de sol por conta dos infinitos finais de semana na praia, mergulhada na água salgada e debaixo do sol escaldante de recife. Creio que muitas meninas e meninos também foram classificados assim, quanto a sua cor.

Mas, mesmo querendo me branquear, desde criança, eu sabia que eu era diferente. Só não queria que fosse assim. O primeiro ponto marcante de diferença era o meu cabelo diferente das minhas amigas. Eu nunca podia ir para a escola de cabelo solto. Muito rebelde, cheio, volumoso, sem a forma de cachos perfeitos e definidos. Os penteados faziam parte da minha estética, e por muito tempo passei a odiá-los: tranças que sempre ficavam apertadas demais e imóveis, apontando para algum lugar; o rabo de cavalo se tornou meu companheiro até a adolescência, também sempre muito apertado. A possibilidade do elástico estourar e meu cabelo ficar solto me aterrorizava, então sempre amarrava outro para reforçar a segurança. 

Que as crianças são sinceras a gente sabe, o que nós custamos a aceitar é que elas podem ser cruéis. Lembro com muita clareza de quando criança, o segundo ponto marcante de diferença era minha cor. Emparelhar os braços e comparar a cor com o coleguinha era comum e ouvir dizer “é, você é mais escura” era resultado sabido. Só essa frase, aparentemente inocente, mas ainda assim, estigmatizadora. 

Foi a partir dela que eu nunca pude ser uma princesa. Nunca pude ser uma barbie. Ou uma das tantas bonecas que enfileiram-se nas prateleiras das lojas. Pouquíssimas vezes pude ser alguma personagem dos desenhos animados que faziam parte das brincadeiras. Quando podia, não queria. A personagem não era legal, ou melhor, não era bonita. Ou pelo menos eu e minhas amigas não achávamos. 

As poucas referências midiáticas não ajudaram no fortalecimento do meu repertório de representações negras na minha infância. A falta da conversa em casa sobre racismo não me fortaleceu sobre o que eu já sofria e sobre o que eu ia encarar no futuro. Não me deu argumentos, afinal, eu não sabia.  

Gosto de imaginar uma mini eu sábia. Que conhece grandes autoras e autores que falam sobre negritude e explicam sobre nossos ancestrais e de onde eles vieram. Que eram reis e rainhas. Que usavam seus cabelos naturais e se orgulhavam deles. Que se embelezavam com infinidades de tranças, dreads, turbantes e contavam sobre suas histórias. Fico imaginando também se teria sido diferente crescer sabendo conscientemente sobre minha negritude, e não descobrindo ela tardiamente, analisando memórias de gestos e falas violentas, que negavam ou diminuíam a minha existência. 

Lucyanna Melo
Curiosa, faladeira, boa ouvinte e estudante de jornalismo. com bastante caraminholas na cabeça que acabam virando texto ou foto. as vezes eu leio uns livros também, porque o mundo real é meio chato.

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