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Uma mulher negra em movimento: conheça a história de Vera Baroni

Nascida no Rio de Janeiro em 16 de maio de 1945, a advogada e militante Vera Baroni se tornou um nome de peso para a comunidade e o ativismo negro no Brasil. Mais velha de quatro filhos, seu histórico familiar traz no sangue a conexão com a ancestralidade africana; sua mãe vinha de Cachoeira, na Bahia, uma cidade bastante importante por sua referência ao Candomblé e, é lá que mora aquela entidade importantíssima de mulheres de terreiro, a Irmandade da Boa Morte

Com um pai policial e motorista de táxi, e uma mãe lavadeira e doméstica, Vera morou em uma casa com outras famílias. Com alguns espaços em comum, como áreas de serviço, cozinha e pátio. Foi em um lugar assim, que ela morou até 1967, quando deixou o Rio de Janeiro. À época, ligada ao ativismo católico, Vera entrou para a JOC (Juventude Operária Católica). Foi onde começou a entender que era mulher e que vivia em uma determinada classe social, onde as coisas não eram como Deus queria. Foi onde viu que a igreja tinha uma importância.

Em 1962 Vera começou a alfabetizar adultos, em uma modalidade, também pelo rádio, as chamadas Escolas Radiofônicas. Logo então, ela passou a ensinar em uma sala da Escola de Sion, no Rio. Depois ajudou a fundar um clube, que funcionava na própria escola, para as pessoas que não tinham alternativa ao lazer. Uma das primeira organizações fechadas no Rio de Janeiro por conta da ditadura foram as escolas radiofônicas e, com uma turma de 60 pessoas, foi uma luta e grande mobilização para continuar o projeto.

Foi no colégio Sion onde Vera conheceu o padre humanitário Paul Gauthier, que a convidou para conhecer uma das comunidades em que atuava em Vitória (ES) chamada Companheiros e Companheiras de Jesus. Durante todo o período da ditadura, Vera foi atuante na frente trabalhista agrária ajudando em um hospital, onde tinha que ficar de sobreaviso para um momento em que alguém estivesse ferido e pudesse atendê-lo.

Vera em Recife

Em maio de 1968, Vera Baroni pisou pela primeira vez no Nordeste, na cidade do Recife, em Pernambuco. Ela veio para cá durante a ditadura militar com uma ideia do lugar formada pelos alunos que alfabetizou durante o período que trabalhou no colégio Sion. Um deles em especial, Sebastião, comentava sobre a cultura popular do estado.

Uma das várias razões de chegar a Recife era conhecer Dom Helder Câmara, porém ele não estava no Estado, então Vera foi até João Pessoa conhecer Dom José Maria Pires e acabou morando em Alhandra, na Paraíba, durante dois anos. A cidade, no interior paraibano, é considerada o berço da Jurema no Nordeste. Mais um ponto onde o caminho de Vera e da religião de matriz africana se cruzam.

Depois da morte do Padre Henrique, assassinado no Recife, Vera foi aconselhada a sair de Alhandra e para uma cidade maior. Foi então que ela voltou para o Recife, onde fez um curso técnico de enfermagem. A escolha da profissão foi feita pensando em um sustento e por poder ser exercida em qualquer lugar. Além de ser uma formação rápida, de apenas três anos.

Logo depois, a então técnica em enfermagem conseguiu uma vaga no Hospital da Restauração (HR) e, em 1971, se casou. Em 1973 teve a sua primeira filha. Foi durante o período de resguardo que Vera foi chamada para trabalhar na arquidiocese do Ceará a convite de Dom Fragoso, que estava no Recife. Por lá, Vera passou três anos, tempo de duração do projeto que desenvolveu no Ceará, e depois voltou para Pernambuco.

Dessa vez, Vera foi morar no interior do Estado, na cidade de Lajedo, próxima de Garanhuns, mas não passou muito tempo. Devido às dificuldades voltou para o Recife. Foi então que ela, junto com seu marido, comprou uma casa no Córrego do Jenipapo. Lá, ela se vinculou ao Encontro de Irmãos e voltou a trabalhar no HR. Na comunidade, Vera começou a receber pedidos de vizinhos para realizar curativos, aplicar injeções, aferir pressão, fazer leitura de bula. Diversas orientações com relação à saúde.

Tinha dia em que Vera chegava do trabalho e tinha uma fila de moradores do lado de fora de casa esperando atendimento. Foi por conta disso que Vera, através do Encontro de Irmãos, começou uma capacitação de algumas pessoas para ajudar a cuidar da questão da saúde no Córrego do Jenipapo. A história foi sendo transmitida e Vera e os outros moradores descobriram que em outros bairros também tinham pessoas que eram referência desse tipo de trabalho.

Foi assim que criaram uma articulação de bairros que se reunia uma vez por mês no seminário de Olinda com assessoria de João Francisco de Souza. Desse grupo saiu uma frente que trabalha em prol da melhoria do calçamento do bairro, outra que cuidou da questão da distribuição da água, outro que cuidou do acesso às comunidades por meio das escadarias.

Ainda em relação à comunidade, Vera Baroni formou um conselho se moradores do Córrego e se ligou a um movimento maior do bairro de Casa Amarela, chamado Terra de Ninguém. Ajudou a fundar uma federação de conselho de moradores de Casa Amarela que funcionava na entrada de Nova Descoberta, na mesma época em que Gustavo Krause assumiu a prefeitura do Recife, instaurando um período de turbulência para as associações e conselhos de moradores.

Vera conta que ajudou a instaurar o que hoje é conhecido como Agentes Comunitários de Saúde, que nasceu em Pernambuco, no bairro de Casa Amarela. Um jovem médico conheceu o trabalho de saúde realizado por ela na comunidade e se colocou à disposição para atender os moradores.

Depois Vera pensou que tinha que se vincular a outro grupo porque estava começando a se discutir as oposições sindicais no estado. Foi quando começou a se reunir no Sindicato das Empregadas Domésticas que ficava na Avenida Conde da Boa Vista, onde hoje é a loja Riachuelo. Isso porque, ao lado, onde agora fica o shopping, era o prédio da Diocese.

Nesse mesmo período estava sendo criada a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Vera já era enfermeira concursada dos hospitais Oswaldo Cruz, Clínicas e do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Na época, a saúde pública era feita pelo INAMPS, que deu lugar ao SUDS e que hoje é o SUS.

Foi também a primeira presidente do Sindsprev, responsável por escrever o estatuto do sindicato, à época já estudante de direito. Depois se tornou a primeira presidente eleita do Sindisprev. Foi em sua gestão que o sindicato adquiriu a casa onde está até hoje. Pelo sindicato conseguiu uma Secretaria que cuidasse dos assuntos das mulheres e outra que tratasse do combate ao racismo.

Também foi responsável por ajudar a fundar o Partido dos Trabalhadores. Foi a 64ª pessoa a se filiar ao pró-PT. Se considera uma mulher negra, em movimento, dentro dos direitos humanos e que quer fazer com que a consciência negra cresça.

Terminou o curso de Direito e ainda acumulou uma especialização em Direito do Trabalho e outra em Direitos Humanos. Foi convidada para fazer parte da Anvisa, onde passou a ser fiscal sanitária. Passou seus últimos anos laborais como fiscal sanitária e coordenando a Anvisa em Pernambuco durante o governo Lula e também coordenou a saúde em Camaragibe como secretária adjunta na primeira gestão de Paulo Santana.

Nos últimos anos, tem se dedicado a luta da mulher negra no Brasil. Parte do seu interesse aumentou em 2001, quando foi representar o Recife na 3ª Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, na cidade de Durban, na África do Sul. Nessa época, ela era coordenadora do Fórum de Mulheres e assessora jurídica na prefeitura do Recife, na gestão de João Paulo.

Por aqui não existia nenhuma organização de mulheres negras e, na volta de Durban, por conta do contato que adquiriu com diversas mulheres negras se sentiu incentivada a puxar um movimento aqui no estado. 

Em fevereiro de 2003, ela e um grupo de companheiras negras fundaram a Uiala Mucaji, primeira sociedade de mulheres negras de Pernambuco. Mulheres negras que se propunham a mobilizar outras mulheres negras a combater a violência, o sexismo, além de promover os direitos humanos. E dentre as finalidades estipuladas estava que iriam buscar a história das mulheres negras e a valorização das mulheres de terreiros.

Foi durante esse período que Vera relembrou uma história que aconteceu quando ela era adolescente. Desde os 2 anos de idade, Vera tinha um problema de pele que não conseguia curar. Frequentou os melhores médicos especialistas, homeopatas e nada curava o problema. Foi quando seu pai e sua tia a levaram a um Terreiro de Umbanda. Lá, ela foi curada pelo Caboclo Arariboia, que fez uma limpeza e receitou banhos. Vera ficou curada e sem nenhuma sequela. Mas a orientação de Arariboia era que, a partir de então, ela deveria ser iniciada na religião. Mas ela não queria, teve medo.

E, depois de anos, a agora médica e enfermeira, foi se aproximando dessa realidade e declarou que achou o pedaço de si que faltava e buscava sem nem mesmo saber que o fazia. Encontrou seu lugar na religiosidade.

Hoje, Vera declara que está absolutamente mergulhada nesse entendimento, há 13 anos em diálogo com mulheres de terreiro, decidiram se organizar em uma rede que junta mulheres do Candomblé, da Umbanda e da Jurema Sagrada. Se propondo a vencer a invisibilidade das mulheres negras e mostrar para a sociedade seu protagonismo positivo.

Vera está com 75 anos e declara que essa trajetória levou a um amadurecimento de sua essência e sua ancestralidade. Hoje, Vera é considerada cidadã pernambucana. Estado que começou a conhecer através de outros e que onde deseja passar o resto de seus dias.

Débora Eloyhttp://www.obirin.com.br
Por definição: companheira, caridosa, desenrolada, amorosa, avexada, doce, paciente, disposta. Por autoria: estabanada, carente e abestalhada

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