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Um novo dia dos pais

O dia dos pais é comemorado em todo o mundo. Equiparado muitas vezes com o dia das mães em termos de importância. Mas deixa eu colocar um fato aqui, de acordo com os dados dos cartórios, no primeiro semestre de 2020, mais de 6% das crianças foram registradas sem o nome do pai em todo o Brasil. Sim, esse ano. Isso dá mais de 12 milhões de crianças que “não tem um pai”.

Comemorar o dia dos pais pode ser considerado uma vitória para muitas crianças, ainda mais para aquelas que fazem parte da população negra no Brasil. Nas comunidades a realidade é algo triste mas, infelizmente, ainda muito presente. Quando o pai assume a criança e convive com ela na mesma casa, geralmente é o pai quem sustenta a casa sozinho, em condições financeiras difíceis, precisando trabalhar mais tempo do que, por exemplo, um pai branco que mora em uma parte mais abastada da cidade.

É por todos esses motivos que comemorar o dia dos pais, para quem é negro, é motivo de uma celebração ainda maior. As conquistas e o dia a dia são uma forma de diminuir um pouco as disparidades que esse dia representa para muitas família. Para dar o exemplo de como essas diferenças podem sim ser menores, o Obirin traz exemplos de homens, negros, pais e que representam muita força para as suas famílias.

Para Rodrigo sua vida não existe sem elas! Foto: Mylena Freitas

Rodrigo Abreu é fotógrafo e pai há dois anos e mantém na memória os momentos mais importantes com sua família.

“Existem alguns momentos marcantes na minha vida, como o primeiro ‘papai’, o primeiro passo, o nascimento de Nicole, poder segurar ela no parto e cortar o cordão umbilical. Até mesmo tomar decisões antes mesmo de Nicole nascer para poder viver esse momento de pai”

destaca Rodrigo.

Rodrigo ainda foi capaz de resumir o que ser pai representa em sua vida. “Não existe minha vida sem eles!”.

Durante a pandemia, o desafio de ser responsável por outra vida se torna ainda maior.

“Sou um caso subnotificado da Covid-19 e já no comecinho, em março, precisei passar 15 dias isolado no quarto, sem contato com minha filha. Ouvir ela batendo na porta e gritando ‘papai’ foram momentos muito difíceis. Até mesmo depois de recuperado, quando precisei voltar ao trabalho e precisar ter o cuidado redobrado ao chegar em casa, com ela querendo me abraçar antes mesmo de eu conseguir tomar banho”

relata Rodrigo.

No dia a dia, as responsabilidades de ser pai se fazem presente na vida do fotógrafo.

“Quando chego em casa, procuro assumir as responsabilidades da minha filha, para ter mais tempo com ela e deixar a mãe dela descansar. Temos uma vida muito corrida, mas vivemos muito na ideia de não sobrecarregar o outro, de não desagradar. Se eu tô mais quebrado ela assume, e vice-versa”

destaca Rodrigo.
Rafael e Martin. Foto: João Paulo Xavier

Para o professor e pesquisador Rafael de Queiroz, o machismo e o racismo estão muito presentes desde a sua infância. Pai de Martin, de quatro anos — o nome é simbólico e foi escolhido pela sua companheira em homenagem a Martin Luther King Jr. —, Rafael revela as inseguranças de ser pai negro.

“A maioria das médicas pediatras não me escutam quando vou relatar o quadro do meu filho, cortam minha fala, não me olham. Geralmente, elas só olham para minha esposa e só pedem informação a ela. Eu não estou totalmente certo se isso é ligado à raça ou resquício do patriarcado de maneira geral, mas no mundo que vivo, quase todas as atitudes de outras pessoas em relação a mim me levam a questionar que a raça está operando ali”

relata Rafael.

Essa realidade é compartilhada por vários pais negros e é uma cultura que a cada dia que passa precisamos lutar para que diminua até desaparecer. Por outro lado, Rafael é um exemplo de pai que superou as próprias adversidades para se tornar um exemplo para o pequeno Martin e procura enxergar sempre o melhor das coisas.

“Meu pai, óbvio, é machista e me passou muita coisa disso na criação. Eu sempre fui muito sensível e acho que isso era um problema para ele, acho que ele sentia medo de como o mundo ia me tratar. Então era um tal de ‘homem não chora’, ‘se chorar, apanha!’, ‘Deixa de frescura!’, a todo momento. Mas veja, ele é um homem negro, hoje com 70 anos, que veio do sertão da Paraíba, e fala com muito amor e admiração do pai dele, meu vô Severino. O que me leva a crer que isso era o modelo de pai que ele tinha e que isso seria normal para ele, não sei. Ele também era extremamente avançado em vários rolês: incentiva o estudo, cozinha as refeições, nunca me incentivou a ser canalha com as mulheres (muito pelo contrário) e não demorou muito a aceitar quando minha irmã nos informou que era lésbica. Então ao mesmo tempo que vejo as falhas e tento não repetir muitas que me causaram muita dor na criação de Martin, também tenho ressignificado essa figura paterna e enxergado coisas boas também no processo”.

relata Rafael.

Para o filho, Rafael pretende fazer diferente.

“Tenho pensado muito, que é uma possibilidade de reescrever minha história através de uma totalmente nova, a dele. Falo isso porque tenho pensado cada vez mais nesse espaço das masculinidades negras e como isso deu a tônica da relação com meu pai e como foi uma relação tão difícil por causa disso também”.

relata Rafael.

Esse é um dos vários exemplos que mostram a constante mudança na forma como as vidas negras devem ser tratadas.

Débora Eloyhttp://www.obirin.com.br
Por definição: companheira, caridosa, desenrolada, amorosa, avexada, doce, paciente, disposta. Por autoria: estabanada, carente e abestalhada

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