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Ser negro e LGBTQIPA+ é enfrentar um verdadeiro combo de problemas estruturais

Ser LGBT e negro é crescer sem discussões sobre o que tudo isso significa! É ter medo de revelar suas dores e seus desejos por não fazer parte de um padrão. É ter que lidar com o que o nosso silenciamento amedrontado faz com nossa saúde mental. É ter que ponderar nossa fala e evitar que certas afirmações gerem riso ou falas preconceituosas.

Se ilude você que de repente pensou que na fase adulta há uma melhora. Todos nós afrolgbts continuamos sendo marcados pelo estigma ao longo das nossas vidas. Para cada grupo que representa uma das letras da sigla LGBTQIPA+, as realidades se diferem, mas sem sombra de dúvidas, tudo o que nos atinge negativamente é resultado da LGBTfobia.

Essa, por sua vez, pode ser apenas combatida com a conscientização da população, que como já foi dito em outra plataforma desse coletivo, tem que partir de uma educação antiracista, antilgbtfóbica e feminista.

Falar de educação implica diretamente em falar de políticas públicas, pois é dever do Estado oferecer, para toda a população, condições mínimas de aprendizado e, consequentemente, uma socialização mais consciente.

A criação de políticas públicas para incentivar essa socialização pode ser uma medida corretiva para tantos anos de descaso. O grande problema da implementação dessas medidas, bem como das preventivas na educação, é a falta de dados. Qualquer governo se baseia em dados numéricos para identificar as necessidades sociais e implementar ações, mas o descaso, por exemplo, com a população LGBTQIPA+ dificulta o entendimento sobre a minha realidade e a de todas as outras pessoas que fazem parte dessa sigla.

Marca do Disque 100

Inclusive denúncias realizadas pelo Disque 100, foram utilizadas pelo ex-coordenador da Diretoria de Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, Julio Pinheiro Cardia,  para gerar um relatório a pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, no final de 2018. Esse mesmo material foi fundamental para a criminalização da LGBTfobia em 2019.

Série temporal da taxa de denúncias por 100 mil habitantes entre os anos de 2011 a 2018 no Brasil

Fonte: Disque 100, elaborado pela FGV DAPP.
Disponível em: http://www.mdh.gov.br/disque100/balanco-2017-1

Durante a divulgação desse relatório, o próprio Cardia revelou que, nos anos anteriores nenhum outro relatório foi gerado mesmo com o registro das denúncia de caráter LGBTfóbica do Disque 100. Isso ainda nas gestões do governo do PT.

Tipos de violações denunciadas em 2018

Fonte: Disque 100, elaborado pela FGV DAPP.
Disponível em: http://www.mdh.gov.br/disque100/balanco-2017-1.

A corrida eleitoral para a presidência em 2018 coincidiu (ou não) com o aumento de denúncias. Inclusive, é importante relembramos que, o até então candidato, Jair Bolsonaro, foi um dos políticos a repercutir mentiras sobre o programa Escola sem Homofobia. Ele e outras figuras decidiram incentivar a ignorância ao afirmar que o programa tratava-se de um kit gay com o objetivo de incetivar a homosexualidade. O desrespeito de pessoas LGBTfóbicas os limitam a cogitar que nenhum de nós optamos por ouvir discursos de ódio, ou por sermos agredidos e até mesmo sermos mortos.

“Sobre violações contra pessoas LGBT, a ouvidoria registrou, no primeiro semestre de 2019, 513 denúncias. Destas, 74,98% são referentes à discriminação, seguida por violência psicológica – que consiste em xingamentos, injúria, hostilização, humilhação, entre outros (com 72,22%) – violência física (36,67%) e violência sexual (8,89%). Dentre as denúncias de discriminação, os números que mais despontam mostram a discriminação por orientação sexual (89,85%), identidade de gênero (17,51%) e religiosa (3,55%).”

Disponível em https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2019/novembro/disque-100-registra-aumento-de-19-12-no-numero-de-denuncias

A violência e falta de entendimento social sobre a situação é tanta que muitas vezes sofremos agressões dentro da nossa própria casa. Nossos familiares acabam compactuando com o discurso de ódio, seja pelas suas crenças, ou pelo simples fato de temerem que falarmos abertamente sobre nossa sexualidade custe nossas vidas.

E apenas nos dois primeiro meses do anos, entre 1/01 e 28/02/2020 (incluso ano bissexto em 2020), o Brasil apresentou aumento de 90% no número de casos de assassinatos em relação ao mesmo período de 2019. Em 2019 foram 20 casos no mesmo período, enquanto em 2020, 38 notificações. O Maior da série dos últimos quatro anos.

O levantamento demonstra que as práticas policiais e judiciais caracterizam-se pela falta de rigor na investigação, identificação e prisão dos suspeitos. E em 2019, apenas 8% dos casos tiveram os suspeitos identificados e 82% das vítimas eram negras.

Pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).
Disponível em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/05/boletim-1-2020-assassinatos-antra.pdf
Foto: Sáshenka Gutiérrez

Muitas não são vistas como gente, e as travestis profissionais do sexo , em sua maioria negras e semianalfabetas que desempenham sua função na rua, enfrentam diversos estigmas no país que mais assassina pessoas trans do mundo.

A precarização de determinada parcela da população faz parte de um plano global genocida para exterminar vidas que enfrentam processos históricos de vulnerabilização, a fim de cumprir o plano de defesa da propriedade privada de uma casta superior pautada na branquitude empresarial, que se diz cristã e é neoliberal, e de garantir a manutenção dos privilégios egoístas de uma elite racista e conservadora, cis-hétero-centrada.”

Por Bruna G. Benevides. Sargenta da Marinha, feminista, nordestina, TransAtivista e Secretária de Articulação Política da ANTRA.
Disponível em: https://medium.com/@brunagbenevides/nova-epidemia-velhas-mazelas-5a320a622a0c

Silenciamento social, descaso por parte do governo, falta de informação, são características comuns em muitos tipos de discriminação, além daquelas que atingem a população LGBTQIPA+. A luta contra o racismo, por exemplo, perpassou e ainda perpassa caminhos semelhantes a luta LGBTfóbica.

No Brasil mais da metade da população se autodeclara preta ou parda, mas ao mesmo tempo tem sua história silenciada desde a infância. Na sala de aula, por exemplo, nossa única referência muita vezes são as fotos de povos escravizados. Tento como base essa proporção deveríamos ter essa representatividade refletida na política, em cargos de chefias e em qualquer outra área de atuação.

Entretanto, somos a maioria mais pobre do país (72%), a maioria da população carcerária (60%) e a maioria das empregadas domésticas (92%). E ainda tem quem diga que não há racismo nesse país. Somos também quem mais morre nas mão da polícia. O Estado talvez nunca tenha ouvido falar no camaronense Achille Mbembe, mas coloca em prática com devoção que ele chama de necropolítica.

Ilustração: Junião

Se você chegou até aqui nessa leitura e nunca sentiu necessidade de discutir todas essas questões ou nunca precisou silenciar parte do que você é em alguma situação, você é uma pessoa privilegiada. Não gostou de ouvir isso? Ok, mas o privilégio tá aí! E você pode utilizá-lo de várias formas: use o espaço que você tem para dar voz a pessoas negras, leia e compartilhe discussões como essa, compre produtos/contrate serviço de pessoas negras (e eu não tô falando do trabalho doméstico).

Já você pessoa negra e/ou LGBTQIPA+ que se identificou com essas informações e sente no dia a dia esse combo de problema estrutural, queria muito dizer que dias melhores virão, mas sei que com certeza em meio a essa pandemia está mais do que nunca impossível manter a mente sã. Todos esses dados são um pequeno reflexo da nossa realidade que é muito cruel e assim como os casos da Covid-19 sofre com a subnotificação, pois desde sempre vivemos numa estrutura política onde as engrenagens não se movem pela nossa sobrevivência. 

Estamos espalhados por todo esse país, as vezes distantes, mas próximos nessas vivências e no desejo de se articular para desmantelar esse sistema genocida. Hoje já compreendemos bem a razão do nosso silêncio e mais ainda a necessidade da nossa fala. A luta nunca foi fácil e ainda será longa. Tudo o que nós temos é nós e vamos juntos!

Lais Rilda
Apaixonada por histórias, tenho o desejo constante de escutá-las, vê-las e registrá-las na tentativa que outros possam viver essa experiência e assim reconhecer no outro um pedaço de si.

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