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Representatividade real ou superficial? O que o jornalismo tem a nos dizer sobre protagonismo negro

Interessante quando paramos para pensar que daqui alguns anos os fatos que estamos vivenciando hoje serão considerados históricos. Eu entendo por fato histórico os acontecimentos que, a partir do ocorrido, transformam a realidade do contexto que está inserido. Pois então, semana passada vivemos alguns desses fatos, e trago para vocês esse aqui, da imagem abaixo:

Painel da Globo News para debater Racismo. Imagem: GloboNews/Reprodução

Contextualizando para vocês leitores, a Globo News, canal presente nas mais diversas TVs por assinatura do Brasil, promoveu um painel para debater racismo com a presença de seis jornalistas negros do Grupo Globo de Comunicação. Vocês podem conhecer mais sobre esses jornalistas aqui e perceber que são grandes nomes da área de comunicação no Brasil, com reconhecido talento, competência e experiência.

Então esse momento da Televisão Brasileira seria um fato histórico?

É preciso ter muito cuidado para tratar disso. Ouvi diversos relatos de pessoas que se emocionaram com o acontecimento, comentando ser grande passo na representatividade do negro na TV brasileira. Um marco realmente relevante e histórico. Pessoalmente, eu sou um pouco mais cético com relação a isso. Por favor, peço que entendam meu ponto de vista.

Estamos em 2020, e só agora temos o maior grupo de comunicação do país colocando negros para debaterem racismo? É. E esse mesmo canal, dias antes nos brindou com outro painel, que lhes apresento abaixo:

Painel da Globo News para debater racismo no Brasil. Imagem: GloboNews/Reprodução

Essa imagem repercutiu negativamente de uma forma gigantesca nas redes sociais, ainda inflamadas pelo assassinato de George Floyd (nos EUA) e do menino João Pedro (no Rio de Janeiro), ambos vítimas do racismo das forças do Estado. 

Depois da péssima repercussão, a Globo News fez o painel que pudemos observar no início do texto. É esse ponto que eu quero tratar aqui. A Globo contribuiu e ainda contribui para a naturalização do homem branco como o portador da verdade, uma pessoa sem defeitos, o transmissor das informações e acima de qualquer suspeita. O padrão William Bonner. Ver, não só Bonner, mas inúmeros jornalistas brancos nesse lugar de poder por tantos e tantos anos nos faz pensar que o normal é aquilo. Que a credibilidade só está presente se a pessoa que nos passa a informação for parecida com aquela que durante tanto tempo se viu.

E a emissora reproduz a sua linha de pensamento por todos os seus canais a cabo, tanto do jornalismo quanto do entretenimento. Quantas pessoas negras ancorando programas você consegue se lembrar? Comenta aí pra mim. Não podemos esquecer disso. O momento de revolta que toma conta da internet nas questões que envolvem racismo no mundo nunca foram tão grandes. A imagem que a Globo passou com o ocorrido no painel com jornalistas brancos debatendo racismo foi muito ruim, negativa. E numa ação rápida de contenção de crise, ela coloca seis jornalistas negros para debater no dia seguinte. Sua imagem saiu de arranhada, insensível, para pioneira, salvadora e o lugar onde negros são protagonistas nos seus debates. E ainda levou o debate para TV aberta, sendo exibido e comentado no Globo Repórter, tendo mais repercussão ainda. 

Trazendo aqui para o campo dos dados e das informações frias, o coletivo de mídia formado por comunicadores periférico, o Vaidapé, fez um levantamento dos apresentadores negros de telejornal das principais emissoras do país. O estudo data de 2017, mas pode nos trazer um grande retrato disso que estamos tratando no texto. Observem:

Observem que apenas 3,7% dos apresentadores são negros. Não é que os 6 jornalistas do painel da Globo News são os principais negros do canal, eles tendem a ser os ÚNICOS negros no jornalismo da emissora. Para vocês terem uma ideia de outro dado apontado no levantamento do Vaidapé, se a grade de programação das emissoras brasileiras fosse composta por 24 horas de programas com apresentadores, 6 minutos desse tempo na tela teria uma pessoa negra no comando do programa. É estarrecedor.

Para alguém que é da comunicação, se ver naquele painel foi de extrema importância, não estou aqui para dizer o contrário. Se tivesse ocorrido antes, com maior frequência acredito que hoje muitos mais jornalistas negros estariam nas redações e TVs. É um processo natural, se você se percebe num ambiente, ele não parece tão hostil e distante. Faz você querer estar ali também. Mas é preciso que as empresas abram espaço para essas pessoas e sabemos muito bem como o racismo estrutural funciona e fecha as portas para nós.

Eu quero muito pensar que esse pode ter sido um tardio pontapé inicial para que jornalistas negros tenham mais protagonismo. Mas, sinceramente, eu não sei se é. Não sei se o ocorrido foi tão histórico assim ou apenas uma estratégia de contenção de danos de uma emissora que, por décadas, tem nos apagado do protagonismo numa sociedade que é majoritariamente negra, em quantidade, mas minoritária, em representatividade. 

Ivson Henrique
Radialista de formação, tem seu legado baseado em produções relacionadas a questões étnico-raciais. Amante de esportes e produções audiovisuais que tratam sobre filosofia, existencialismo e tempo.

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