Uma cartilha sobre óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros foi divulgada nesse ano e está disponível na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). O material é resultado da parceria entre o Ministério da Saúde e a Universidade de Brasília e traz números referentes ao período de 2012 a 2016.

As informações da cartilha apresentam o aumento no número de suicídios ao longo desses anos e relaciona esses dados com questões sociais como etnia, destacando o aumento no número de suicídios de adolescentes e jovens negros. Uma situação preocupante principalmente quando nos deparamos com os “determinantes”: fatores que levam a vulnerabilidade em saúde. E aqui já aproveito para reforçar que suicídio é uma questão de saúde pública.

Estão entre os determinantes fatores sociodemográficos e psicológicos, como: desemprego, migração, isolamento social, conflitos armados, perda de pessoas próximas, mudanças políticas e discriminação.

Imagem 1 – Tiro ao Álvaro

Levando em consideração esses itens, me preocupo com o cenário de suicídio de 2017 e 2018 (porque não já 2019?). Nesses anos, passamos por mudanças bruscas no cenário sócio-político-cultural brasileiro. Desde então, todos esses determinantes se intensificaram diante de nós, seja na nossa rua, em um perfil de notícia do facebook, em uma emissora de rádio/televisão, Youtube ou nas correntes, às vezes, sangrentas, do Whatsapp.

A única coisa que nesse período talvez não esteja explícito aos nossos olhos é o número de suicídios, já que essa ainda é uma questão tabu. As pessoas que tentam suicídios ou as pessoas próximas a elas, por vezes escondem a situação por vergonha. Entretanto, ainda segundo a cartilha: quem tenta cometer suicídio uma vez está propenso a tentar novamente.

Você que está lendo esse texto, com certeza já deve ter tomado alguma vacina, e agora deve está se questionando qual a relação entre vacina e suicídio. Antes que você comece a imaginar que alguma vacina está sendo desenvolvida para isso: você já parou para pensar que a vacina é uma das melhores formas de cuidar da sua saúde, isso porque se vacinar é uma medida preventiva. A prevenção é uma palavra chave, principalmente quando falamos de questões de saúde pública, como o suicídio.

Pensando, em especial, na população negra, a prevenção está diretamente ligada à sensação de pertencimento. Por isso, quando relacionamos suicídio e etnia a palavra chave para resolver essa questão passa a ser empoderamento, mesmo que nos últimos anos seu significado tenha se banalizado. Diante desse cenário, ações de prevenção devem ser elaboradas, e tão essencial quanto o fornecimento do suporte social pela comunidade é o papel do Estado em viabilizar essas ações.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) do Ministério da Saúde foi aprovada em 2006. O PNSIPN reconhece o racismo e a forma como isso nos afeta na hora de usufruir do uso do sistema de saúde. Por isso, traz nas suas estratégias de ações: medidas de fortalecimento para as unidades de saúde no sentido de atender as especificidades de homens e mulheres negras.

A implementação da PNSIPN segue a passos lentos pelo Brasil. Em 2009, essa Política foi publicada pelo Ministério da Saúde. Cinco anos depois, Luis Eduardo Batista, do Núcleo de Serviços e Sistemas de Saúde, Instituto de Saúde – SP e Sônia Barros da Escola de Enfermagem – USP, resolveram identificar o desenvolvimento dessa política pública no país e criaram o projeto: “Avaliação do Processo de Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra: Indicadores de Monitoramento e Avaliação”, aplicada em três etapas:

  1. um instrumento eletrônico composto de 52 perguntas divididas em tópicos e enviadas à gestores e às lideranças de movimentos sociais que atuam no campo da saúde da população negra;
  2. sistematização das respostas com base nos dados qualitativos do questionário;
  3. reuniões técnicas com representantes dos movimentos sociais, gestores municipais, gestores estaduais, representante da coordenação da PNSIPN do Ministério da Saúde, representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, a fim de discutir os resultados e a aprimoramento da aplicação e avaliação do PNSIPN.

O resultado da avaliação foi alarmante, tendo em vista que dos 5561 municípios brasileiros apenas 32 responderam à pesquisa. A imagem abaixo ilustra melhor esse cenário de acordo com a região do país.

Imagem 2 – Avaliação da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), Brasil, 2016.

No início do ano, publicamos um vídeo na nossa fanpage sobre a série Atlanta. Nele, utilizamos uma cena da série para falar sobre a saúde mental de nós, negros. O texto alerta exatamente sobre a forma como costumamos banalizar esse assunto e, principalmente, esboça o histórico do tema no Brasil, trazendo o caso de Barbacena.

A escravidão afetou diretamente a saúde mental da população negra da época e ainda hoje sofremos com os resquícios desse período. Os escravos foram objetificados e, mesmo com o fim da escravidão, não contaram com políticas públicas que igualassem seus direitos à elite branca, pelo contrário, o Estado continuou negando qualquer assistência social, e isso é um fator histórico que carregamos até hoje. Prova disso, é que apenas na década de 90 conseguimos espaço suficiente no poder público para ser ouvido acerca da relação entre o racismo e a saúde, e assim forçamos a inclusão do quesito raça/cor nos dados do sistema de saúde. O município de São Paulo foi o primeiro a passar por esse experimento.

A partir daí novas batalhas foram sendo travadas e o segundo marco importante foi em 2004 com a criação do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde, responsável por elaborar a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde.

O cenário político atual não ajuda em nada a qualidade da nossa saúde mental, os anos seguintes aos avaliados pela pesquisa que resultou na cartilha aqui discutida, trazem casos graves de repercussão nacional e internacional, que infelizmente representam a complexidade da situação. Evaldo, Marielle e Ágatha foram vítimas desse cenário.

Imagem 3 – Engarrafados

Muitas outras famílias estão vendo parentes sendo assassinados, comunidades estão perdendo vizinhos, enquanto uma política conservadora avança e faz a cada dia mais vítimas. Por isso, aos que ainda têm fôlego para a luta, a única saída é cobrar ao Estado que cumpra o seu papel, oferecendo educação e atividades que fortaleçam a raiz do nosso povo para que a gente se sinta pertencente a cada espaço que entramos. Sim, isso não vai ser rápido, muito menos estaremos imune à dor, por isso, para começarmos a cobrar é necessário nos articularmos.

Precisamos, entre nós, criar zonas de segurança, onde a gente consiga falar abertamente dos nossos enfrentamentos diários, nos auto cuidar e cuidar dos nossos, para que nos fortalecemos enquanto povo negro, oferecendo resoluções e atividades que ressignifiquem a vivência de adolescentes e jovens negros, para que o suicídio não seja, para nenhum de nós, a única alternativa para se livrar do processo de negação social que historicamente nos atingem.