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Para além das minhas lentes embaçadas

Certa vez assisti à uma entrevista com Jean Machado (integrante da Banda Tuyo) para o RROOMM/HAI Studio. Ao longo da conversa, entre vários momentos de identificação com as suas falas, um dos pontos que mais me chamou atenção foi quando comentou sobre as suas inspirações. Jean trouxe que por um tempo ele se inspirou em pessoas das quais lia a respeito ou ouvia histórias sobre, mas ao chegar perto esses heróis morriam porque era algo pautado no que se ouvia, em impressões distantes. Falou também do medo em se espelhar no que está distante, sua admiração vem de enxergar de perto, de ver os detalhes.

Fiquei pensando sobre como eu crio as minhas referências, sobre como é simples admirar o que está distante, intocável e inevitavelmente, ao chegar perto, ver essas referências se dissolverem. Da mesma forma que para mim é confortável me mostrar por entre sombras, como um eclipse que para vê-lo cobrimos os olhos. De novo faço menção à uma analogia que li em um dos textos de Aline Valek, dessa vez não é o medo que a aproximação me queime, é o medo que a aproximação dissolva a imagem que eu construí à uma distância segura.

Distante não se veem os dias em que se acorda querendo sumir, os choros ao encarar quem você é ou o que você tem se tornado e tomar responsabilidade sobre isso. Não é simples me enxergar como um ser admirável ao passo que estou no processo de reconhecer as minhas fraquezas. Muitas delas são como um fio repuxado na barra da camisa, que você acha que só uma puxadinha resolve e quando vê descosturou o acabamento inteiro.

Passar a construir as minhas referências pautadas no que eu enxergo de perto é um exercício para que eu olhe para mim de forma mais gentil, para que eu esteja confortável ao ser olhada de perto. Assim como eu escolho os traços nos quais eu tenho admiração no outro, os meus traços estão passíveis a essas escolhas, uma obra em construção na qual escolhemos os materiais que a compõe. O quanto eu me sinto mal em ser vista de perto é um resultado de como eu olho os outros de perto, de como eu acho que vou ser olhada também. Os julgamentos apressados e o juízo de valor.

Me deixar ser vista, me indica como ver os outros. Para ser vista de perto é preciso intimidade e ela não vem da quantidade de tempo perto, mas do quanto eu me mostro. A admiração mútua vem da troca, do quanto enxergo a mim e ao outro, do quanto estamos visíveis. Não dá para eu me deixar conhecer e correr quando algo estiver à mostra porque eu julgo que o que está sendo visto é imperfeito.

Lidar com imperfeições e reconhecê-las não é um processo de me tornar boazinha e correta, é um processo de tomada de consciência e responsabilidade pelo que eu faço. Com o hábito de olhar de longe, me percebi desapontada ao conhecer as pessoas da página dois em diante, quando a diagramação está torta, quando o resto do texto diverge da capa bonita. A imagem é algo facilmente manipulável, principalmente se for construída de longe. Cresci vendo isso com frequência, hoje faço um esforço para olhar alguém no alto da sua eloquência, discursos autoconfiantes e pouco humanos e não censurar-la pensando: “muito bonito o seu discurso, até onde vai?” mas e o meu discurso, até onde ele vai?

É raso não passar da página dois, é raso só querer a capa e o texto de orelha, o prefácio que talvez foi escrito por outra pessoa e ignorar as minhas próprias páginas amassadas, escritas a próprio punho. Com pingos de lágrima e suor, que intercalam com momentos muito felizes e fazem ser quem eu sou. Ter interesse nas minhas páginas borradas de vida, me faz ter interesse e complacência por outras histórias reais, de pessoas possíveis e referências concretas, novos heróis que sobrevivem a serem vistos de perto, para além das minhas lentes embaçadas.

Afinal, eu sou míope, eu literalmente não enxergo bem longe.

Por Mariana Ramos Cavalcanti Nery

Obirin
Nasci da ideia de disseminar e aproximar as ações de grupos e pessoas que estão na luta pela igualdade racial.
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