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Pandemia aprofunda desigualdades e acentua problemas das periferias do Brasil

Com o vírus Sars-Cov-2 tendo desembarcado de aviões internacionais no Brasil, a doença atingiu de imediato o topo da pirâmide social, fazendo encher hospitais de alto padrão e isolando pessoas contaminadas em apartamentos de vários m² localizados em bairros ricos. Agora, pode-se dizer que a pandemia ganhou contornos à moda brasileira graças à desigualdade social que opera no país. Chegando nas periferias, os impactos mais duros já podem ser sentidos principalmente na mesa das famílias.

“O que mais me impressionou foi a velocidade muito grande com que a fome chegou na periferia. Logo nos primeiros dias, nós começamos a receber ligações das mulheres, de tamanho desespero por não saber o que fazer, porque não tinha como comprar alimento para casa, por causa do desemprego, porque estavam perdendo trabalho (…)”. 

A situação relatada por Liliana Barros, socióloga e integrante da ONG Cidadania Feminina, com atuação na comunidade do Córrego do Euclides, na zona norte do Recife, ilustra os números levantados pelo Data Favela e o Instituto Locomotiva. De acordo com a pesquisa, de 5,2 milhões de mães moradoras de periferias do Brasil, 73% dizem não ter reserva financeira que permita manter os gastos sem trabalhar por um dia que seja.

Liliana Barros, socióloga e integrante da ONG Cidadania Feminina. Imagem: Acervo Obirin

A interrupção dos trabalhos considerados não essenciais faz parte das medidas de isolamento social implementadas por alguns estados, de extrema necessidade para o enfrentamento ao vírus. A falta de políticas públicas construídas de acordo com as demandas e fragilidades dos territórios periféricos, no entanto, coloca pessoas em situação ainda mais vulnerável e, em muitos casos, de extrema pobreza.

Exemplo da necessidade da remodelação de políticas para a população pobre e periférica é o auxílio, ou renda básica, emergencial. A medida, anunciada pelo governo federal após forte pressão social, pagará R$600 por mês, ao longo de três meses, para trabalhadores informais, autônomos prejudicadas pela crise, pessoas de baixa renda e beneficiários do Bolsa Família. Para solicitar o benefício, é preciso que acessem um site na internet ou baixem um aplicativo em um dispositivo móvel. Isso em um contexto onde 45,9 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet, segundo pesquisa realizada pelo  IBGE em 2018 e divulgada no último dia 29 de abril.

“A gente tá falando de uma realidade de pessoas que nem sequer tem CPF e você pedir para baixar aplicativo… As pessoas não tem internet (…). A gente tá falando de pessoas que não tem feijão para comer, que dirá se essa pessoa vai ter dados para ficar o dia inteiro tentando a hora que o aplicativo vai funcionar. Então, de fato não vai chegar para quem precisa muito. Quanto mais a pessoa depende desse auxílio, mais difícil é o acesso delas”

Anna Karla Pereira, mestranda em história. Imagem: Ivson Henrique

O cenário é descrito por Anna Karla Pereira, moradora do Ibura, mestranda em história e articuladora social da Frente Favela Brasil, com atuação em várias comunidades do Recife. O notório descaso com os bairros mais pobres em meio a uma crise de saúde mundial é escancarado e as dificuldades, que já existiam, se tornam ainda mais visíveis. As medidas de prevenção à contaminação pelo vírus recomendadas a todos os brasileiros, como higienização constante das mãos e distanciamento social, por exemplo, são impossíveis de serem seguidas corretamente por moradores desses territórios em razão de problemas de falta de água, saneamento básico e moradia.

Córrego do Euclides, Recife. Imagem: Acervo Obirin

“O Córrego do Euclides tem problema de água, o Córrego do Euclides tem problema de lixo… Muitas pessoas moram juntas em espaços pequenos, como em qualquer periferia, e a gente sabe que esse é um caminho aberto ao vírus”

preocupa-se Liliana.

Movidos pela falta de apoio governamental, grupos como o Cidadania Feminina e o Frente Favela Brasil têm se organizado e procurado formas de minimizar os impactos do processo epidêmico nas comunidades do país.

Alto Três Carneiros, Recife. Imagem: Ivson Henrique

Entrega de cestas básicas, kits de higiene e máscaras de proteção; disseminação de informação de forma acessível; são apenas algumas das importantes ações desenvolvidas por redes de moradores de bairros periféricos do Recife, com o apoio de pessoas e entidades. Para falar melhor sobre as organizações responsáveis, as atividades empreendidas e como fazer para colaborar, trazemos amanhã conteúdo mais aprofundado, onde conversamos com mulheres que estão envolvidas nos processos.

Emanuely Lima
Jovem negra, filha do sertão do Pajeú e adotada pelo Recife. Recém-formada em jornalismo, costuma dizer que assobia e chupa cana ao mesmo tempo, experimenta de um tudo e se interessa por um mundo de assuntos e áreas, embora esteja sempre falando sobre negritude, feminismo e direitos humanos, tudo que perpassa a existência, dela e dos seus.

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