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Oitava edição do Julho das Pretas realiza discussões em programação online

Sete anos após a primeira edição do Julho das Pretas, a iniciativa se reinventa diante da pandemia do novo coronavírus. Organizações participantes promovem encontros virtuais e disseminam informações, agora de forma virtual nas redes sociais. As novas estratégias impedem o calor dos encontros e a possibilidade de entrada nos territórios, mas continuam a denunciar as realidades enfrentadas pelas mulheres negras.

Desde 2013, o Julho das Pretas estabelece uma agenda conjunta com movimentos de mulheres negras de estados do Brasil, grande parte do Nordeste, para o fortalecimento das organizações de mulheres negras. A escolha do mês não é por acaso, no dia 25 de julho é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra no país.

Este ano, a data e todo o mês de discussão são pautados pela temática “Em Defesa das Vidas Negras e pelo Bem Viver”. O mote busca novas formas de pautar a valorização das vidas negras a partir de um projeto político de bem viver que, desde a Marcha das Mulheres Negras de 2015, vem sendo colocado como uma outra forma de organização social e prática política.

Piedade Marques, integrante da coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e de Pernambuco, falou conosco sobre o significado do evento.

“Todo ano a gente se reúne e discute qual deve ser a pauta. Então esse ano a ideia da defesa das vidas negras foi pensando em que medida o direito à vida é negado às pessoas negras e às mulheres negras principalmente”,

explicou Piedade.

“O Bem Viver já é um princípio defendido por nós há um tempo. Ele é fundamentado num conceito andino de uma forma de vida pautada na natureza, na convivência respeitosa com a natureza e da vida em coletividade. Nisso, existe uma relação com a ancestralidade, com o olhar para o passado para aprender com ele. Ao mesmo tempo, o Bem Viver toca também na questão da saúde mental da mulher negra e do autocuidado”,

complementou Piedade.

Esses e outros assuntos foram envolvidos em uma programação virtual que teve início no começo do mês e vai até o início de agosto. Webinários, lives séries de postagens no Instagram e até mesmo uma feira virtual foram algumas formas encontradas pelas organizações para manter o Julho das Pretas mesmo com o impedimento do encontro presencial.

“A agenda conta com mais de 275 atividades conduzidas por organizações de todo o Brasil. Tivemos que pensar em estratégias que levassem para o online o que a gente fazia no dia-a-dia, então nos reunimos e traçamos um plano de ação voltado para a comunicação nas redes sociais de forma mais intensa”,

disse Piedade.

Desafios e problemas impostos pela pandemia 

Apesar do sucesso de engajamento no Julho das Pretas, com recorde de inscrições, as mobilizações online apresentam alguns desafios para os movimentos e organizações sociais de maneira geral. O acesso à internet ainda é limitado, cerca de 30% dos domicílios no Brasil ainda não têm acesso à internet segundo o IBGE. A diferença geracional também aparece como um desafio para a conexão virtual dentro dos grupos.

“No começo foi muito difícil porque nós temos na Rede de Mulheres Negras de Pernambuco mulheres de diferentes idades, lugares e situações socioeconômicas, de mulheres jovens acadêmicas até senhoras mais velhas, por exemplo. Então, a adaptação, principalmente no uso das ferramentas para realizar os encontros, tem sido o mais complicado”,

completou Piedade.

A pandemia traz ainda outras questões. A crise econômica provocada pela doença tem feito com que mulheres tenham uma queda drástica na renda. Muitas entraram no desemprego ou, aquelas autônomas, se deparam com a perda dos rendimentos pela necessidade de se manter em casa. Os movimentos têm se envolvido em ações para amenizar de alguma forma o impacto dessas mudanças.

“Muitas de nós passaram por dificuldades ou então mulheres das comunidades em que estamos inseridas, então a gente começou a realizar atividades de arrecadação e entrega de cestas básicas, itens de higiene, máscaras etc. De forma mais direta também nos posicionamos por meio de cartas e notas sobre diversos desdobramentos da pandemia, como por exemplo o caso do abandono do menino Miguel Otávio e a situação da sua mãe Mirtes Renata”,

falou Piedade.

A pandemia também aparece como tema recorrente de discussão dentro da programação do Julho das Pretas. O debate dentro do movimento negro é justificado pela percepção que o problema tem afetado de maneira mais intensa os grupos mais vulneráveis, como é o caso das pessoas negras, pobres e as mulheres, além de outras minorias sociais.

Como parte da agenda do evento, a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco discute a “Resistência das mulheres negras de Pernambuco em tempos de pandemia”, em transmissão ao vivo neste sábado (24) nas redes sociais. A ação ainda faz parte de uma programação intitulada “Ocupação das Mulheres Pretas”, que traz ações nas diversas mídias nos dias 24 e 25 de julho. Vale a pena assistir para entender melhor como é possível agir e se posicionar a partir de novas estratégias impostas pela realidade da pandemia, como o que foi feito no Julho das Pretas deste ano.

Emanuely Lima
Jovem negra, filha do sertão do Pajeú e adotada pelo Recife. Recém-formada em jornalismo, costuma dizer que assobia e chupa cana ao mesmo tempo, experimenta de um tudo e se interessa por um mundo de assuntos e áreas, embora esteja sempre falando sobre negritude, feminismo e direitos humanos, tudo que perpassa a existência, dela e dos seus.
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