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O tinir da escuridão (ou arquivando memórias)

Vou te contar o mais rápido que posso um sonho que tive em uma noite nebulosa, cujo amargor fazia meus lábios tremerem: o ambiente era escuro, eu estava caindo eternamente, havia um sorriso estridente que me penetrava saindo das sombras, as quais também me circundavam, fazendo do temor uma vibração equiparável à fé de chorar sozinho: eu estava adentrando a um plano superior à morte. Eu era a memória de um corpo mastigado, e vingança não era algo cogitável. 

Eu tentava correr da própria ação de cair, caindo. Sentia o vento me acalentar: quente, suave e aconchegante. Ia aos poucos aceitando meu destino pueril de findar: eu me finalizava aos poucos em sombras e temores, caindo. As sombras me engoliam, meu corpo pesava uma tonelada e meia. Quanto mais caía, mais grande e volumosa era minha massa. Meu corpo estava veloz e cheirava a pó.

Inversamente proporcional a ti.

Havia uma corrente que tanto queria, segurando meu pescoço e cabeça. Ela era de ouro, mas sua alegria não se fazia como antes em meu corpo. E há uma razão específica para sentir meu corpo transubstancializado em sombras, atravessando objetos sólidos, outros corpos e o próprio tempo: ele talvez não mais exista. Vou fazer um esforço para te provar isso, e já te antecipo… meu arsenal, hoje, não se constitui só de palavras. 

Hoje, quero ir além. Quero ler imagens e imaginar. Vou construindo, mesmo caindo, com um sorriso contrito, o meu espaço. E não me venha com “peraí”, o meu espaço é denso, apertado e insípido, mas aberto o suficiente para um abraço. Vamos juntos, afrofabulando, sentindo medo e ódio, alegria e êxtase um no outro, pois esses dias têm sido insuperáveis. 

Há um grande passado à nossa frente [1], e eu o encaro no ato de cair sem ver seu fundo, porque o passado também é sombras. Tenho que encarar a morte. Prometo mentir que “não irei pensar sobre isso”, mesmo me desfazendo em sombras, caindo, me sustentando em um fio estreito demais para ser vivo. 

Minha pele é tenra e rachada de dor.

E no meio do infindável movimento do meu corpo, tragado pela unidade gravitacional do vazio, me vejo como imagem a olho nu: sou objeto de estudos e análises, sou medido, sou roubado. Me aprisionam em luz. Sinto o movimento rápido do meu corpo caindo no vazio. Encontro meu eu, a matéria orgânica sem valor, caindo eternamente no vácuo da escuridão, transpassando outros corpos “dos mortos em tua morte entabulados” com “sangue margeado vivendo na noite sem ventania” [2].

Me sustento em uma corrente e sou tragado.

Sou a virtualidade [3], que me permite ser no vácuo infinito do ser, bem como a empatia tão excessiva que até mesmo a distinção entre o real e o falso não é: se alguém finge sentir dor, eu sinto. E se alguém morrer por um ferimento que lhe atinge a pele preta, também o farei. Sou inversamente proporcional a ti, luz. Encaro nossa despedida, enquanto caio infinitamente em meu sonho, e compartilho com você o movimento de me tornar sombras. São notas sobre um estado específico de nostalgia mortal, porque o banzo renasce em mim [4].

E como já disse aqui que “quero queimar o inferno”, me coloco na posição primordial: “Se não posso vencer os céus, moverei o Inferno” [5]. Como ousas perturbar o sono daqueles cujos movimentos mortíferos não nos são perceptíveis em vida?, pergunto-me. Como podes se aliar à morte e desafiar a vida? Como podes navegar neste mar? Como puderam arquivar a morte? Esta última, sim, a verdadeira pergunta. 

Com a memória do que não existe não se pode escrever. Não se pode perguntar às sombras onde a luz está, porque elas já se foram. Nas sombras, o sangue é preto e não existe por muito tempo. O que resta é a poesia e o movimento eterno de corpo escuro: tragado, sustentado por uma corrente de ouro. É um corpo que nem a si mesmo pertence. E se a escuridão tudo consome, fogo! Se o arquivamento tudo apaga, combustão. E se minha pele é tenra e rachada de dor, combustão! Lute! Traga luz às sombras, queime o inferno. 

Só tenho meu corpo, que não me pertence.

Meu corpo finalmente cai. Chega ao chão em pedaços. É enquadrado e fotografado. Finalmente, no ponto de origem. Minha queda findou. Minha pele está seca, mas óleos de mãe me veem. Óleos de mãe me veem: eu também suo pelos olhos, eu também sou pelos olhos (mesmo morto). Suspira no meu ouvido o que tu és, e a gente se desmancha em sombras. Eu, as palavras que me fazem nu demais para poder sair.

Não quero cair, mas cada palavra me assalta e me machuca. Cada memória me empurra mais e mais. O café não é mais suficiente para me acordar do tão esperado sonho de liberdade. Sonho que se perde no prazer da dor e na indelicada necessidade que tenho de arrancar-me. 

Uma memória arquivada não é, não existe na carne alheia, só naquela cujo o espinho sempre a lembrará em noites escuras, onde o tinir de projéteis escurecem nosso mundo. E agora sei que a mesma bala que me atinge eu também sou (e me torno). Bala que sempre me acha, porque ela também sou. Eu sou o movimento de morte, depois de tantas vezes o senti-lo: bala achada em escuridão. Por isso, combustão! 

[1] Frase célebre de Millôr Fernandes.
[2] Poema de Glissant no livro Le sang rivé [1947-1957] em Le sel noir. Paris: Gallimard, 1983.
[3] Conceito de Virtualidade desenvolvido por Denise Ferreira em “A dívida impagável”.
4] Frase célebre da Conceição Evaristo sobre o banzo, palavra que segundo o Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem na língua QUICONGO, “mbanzu”: pensamento, lembrança; e no QUIMBUNDO, “mbonzo”: saudade, paixão, mágoa.  Ou seja, seria um tipo de “nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil.” , um processo psicológico em razão de serem levados para terras longínquas, estado profundo de nostalgia, podendo levar à loucura ou à morte.
[5] “Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo” (tradução: “Se não posso vencer os céus, moverei o Inferno”), frase de Virgílio, Enéida. Livro VI, verso 878, que é citada por Freud em seu livro “A Interpretação dos Sonhos”.

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Gente, que loucura escrever e compartilhar com vocês essas viagens. Essa poesia em prosa faz parte de uma reflexão sobre o arquivamento como ferramenta colonial e aqui me refiro ao arquivamento da chacina de Jacarezinho. Mas, como alguns de vocês sabem, não quero falar sobre morte, nem dor, tampouco sofrimento. Queria encontrar a linha tênue entre a memória e a resistência de ter a morte como elemento constitutivo da sociabilidade e da psicologia das pessoas negras e racializadas neste país. São palavras desconexas em sequência cronológica que tentam refletir sobre como a operação mais letal da história do Rio não só revela como o direito e a democracia não se aplicam a todos e todas nesta velha colônia, mas como tal ato formula o inconsciente infantil e coletivo sobre a morte. Logo, este texto tenta trazer o desconforto que pensar todo tempo sobre a morte pode provocar.  E, além disso, esse projeto salta aos nossos olhos com um ensaio feito em parceria com minha amiga Bruna Souza, o qual tem concepção artística e edição feitas por mim.

Lucas Daniel
Lucas é fotógrafo, produtor cultural, roteirista e escreve sobre narrativas na internet centralizando as relações étnico raciais como estruturantes e estruturas da realidade social, política e cultural brasileira. Ele procura com as produções e os textos desvendar e jogar luz sobre as iniquidades sociais e raciais a partir do conceito de justiça social ligado a interdisciplinaridade entre psicanálise e comunicação.

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