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O mangue e a cozinha: a jornada de descoberta de Geisiane e Negralinda

Da mesma terra vieram Geisiane e Negralinda. Do umbigo do mundo, rodeadas de águas salgadas e vegetações entrecortadas de mangue, surgiram. Na Ilha de Deus, criadora e criatura se fundem e se confundem. São duas diferentes, que isoladas não seriam reconhecidas, mas, vistas de perto trazem o sentido de continuidade e complementam-se. Em épocas e contextos diferentes nunca coexistiriam, diante do destino estabelecido para quem é preto e pobre na “terra sem Deus”, como os de fora chegaram a amaldiçoar. Oportunidade é o que separa Geise de Negralinda. Na verdade, é isso que as aproxima. São uma só.

Geisiane nasceu na comunidade da Ilha de Deus, zona sul da cidade do Recife, área que por muito tempo esteve isolada do resto da cidade por não haver conexão física que a fizesse. Era de fato uma ilha, onde políticas públicas demoravam a chegar ou sequer chegavam, não porque não era vista, mas porque escolhiam não enxergá-la. Quem ali morasse era marginalizado, como tudo que é periférico, também criminalizado.

Foto: Emanuely Lima

A necessidade se mostrou para Geisiane muito cedo. Tão cedo aprendeu a cuidar de si, precisou se jogar ao mar para ajudar no ganha pão da família. Pescava sururu, trabalho que aprendeu com a mãe, passado de geração como um código genético, precisavam as duas colocar a comida na mesa. Apesar das dificuldades, estudava tudo que podia, se empenhava em todo e qualquer curso que poderia ter acesso. A ONG Saber Viver, criada pelos próprios moradores da comunidade e com ajuda de parceiros, ofertava a formação para as pessoas da Ilha. Era possível aprender artesanato, dança e culinária. Geisiane fez todos, aprendeu de tudo um pouco, até se deparar com Negralinda.

Nossa menina Geisiane começou a dançar em um grupo criado na própria ONG, até que foram todos convidados para atravessar o oceano e se apresentar na Alemanha. Lá estava ela, logo não seria mais a mesma. Precisando de um nome artístico e de diferenciar a bagagem das outras tão iguais, nasceu Negralinda: a representação de uma outra persona, que em breve seria ela mesma. Costurou uma boneca e fixou na mala, mas não só na mala ficou, também na lembrança de todo mundo que pôde ver. Negralinda continou. Dali em diante já não era mais Geisiane.

Da oportunidade de voar, veio a sensação de poder. Ela poderia ir além do que haviam esperado dela, por que não? Sendo mulher negra e periférica, as expectativas socialmente colocadas não chegavam nem perto daquelas que a sua cabeça já tinha imaginado. Queria ser vista, queria que vissem a Ilha de Deus, o trabalho da sua mãe e a potência que existia em tudo aquilo. Como ela, haviam outros sonhadores e a vida fez questão de cruzar o caminho deles e plantar a semente da mudança em todos eles.

Edy Rocha, Nalvinha da Ilha e outros parceiros – como ela mesma chama -, acreditaram que havia beleza no que Deus tinha criado, a Ilha, a natureza, o sururu, a mariscada, as pessoas. Tudo isso junto e misturado dão vida aos projetos construídos ali mesmo, o turismo social e o Bistrô da Negralinda, os dois sendo, até mesmo um só. Com o próprio  rosto como marca, Geisiane Negralinda voltou ao mar, não mais para pescar, mas para fazer dos pescados o melhor que poderia. Na cozinha, se transformou em chef e deu para o mundo o que sempre tinha ali em abundância, os frutos do mar.

Foto: Emanuely Lima

Não só cozinhou na Ilha, como foi a eventos, deu aulas e palestras. As pessoas queriam ouvi-la, aprender com ela e entender o que havia de especial naquela menina e no tempero que colocava na mariscada, queriam ouvir Negralinda, mas também Geisiane. Ela ficou espantada com aquilo tudo, mas entendeu ter encontrado o caminho, percebeu que não tinha um segredo para a comida que vendia ou o serviço que prestava levando as pessoas para conhecerem o seu lugar. Tudo era o motivo, a começar pela união do seu povo e os frutos que podem ser regados e colhidos a partir daí.

Foto: Emanuely Lima
Emanuely Lima
Jovem negra, filha do sertão do Pajeú e adotada pelo Recife. Recém-formada em jornalismo, costuma dizer que assobia e chupa cana ao mesmo tempo, experimenta de um tudo e se interessa por um mundo de assuntos e áreas, embora esteja sempre falando sobre negritude, feminismo e direitos humanos, tudo que perpassa a existência, dela e dos seus.

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