O entendimento social de raça e etnia no Brasil leva em consideração a autoafirmação do indivíduo, enquanto nos Estados Unidos, a regra básica é ter descendentes diretos negros, assim, de pai pra filho. Talvez por isso o costume de casamentos entre a mesma raça ser mais fortes lá do que aqui. Porém, um fato curioso que aconteceu no país acima da linha do Equador e que fez muitos refletirem foi o de uma jovem, acadêmica, auto afirmada negra, militante do movimento negro nos Estados Unidos e professora universitária que trata de assuntos envolvendo a história da África ter sido “desmascarada” por familiares que afirmavam que a jovem não era, de fato, negra.

Rachel antes da transformação (Foto: Amily/Splash News)

Após uma publicação onde celebrava os 36 anos de idade, e de cachos, em uma rede social, Rachel Dolezal afirmava que possuía descendência direta de origem africana, com pai negro e mãe branca. E, por isso, alguns de seus traços eram considerados arianos, como os olhos verdes, e outros de origem africana, como os cachos negros e a pele escura.

Porém, depois da comemoração da professora, seus pais foram até a TV local onde afirmaram que a filha mentiu, eles comprovaram que os ancestrais de Rachel eram, na verdade, europeus e que na árvore genealógica da família não havia nenhum ancestral negro. Isso levantou tamanha discussão na sociedade e nas redes sociais e que pode deixar algumas interrogações nas mentes mais engajadas. Será, que agora, o mundo está virando às avessas?

Lembram-se na época em que Michael Jackson passou por uma transformação na cor da pele? Ele afirmava que era por conta do vitiligo, porém, o que se acreditava até então era que, na verdade, o peso de ter nascido negro e crescido em uma sociedade onde o negro era discriminado, era um fardo muito pesado e, por isso, ele “aproveitou” da doença para se tornar um homem branco e assim gozar dos privilégios da raça. Nessa sociedade, os privilegiados era os que tinham a cor da pele e os olhos claros e um alto grau de instrução. Só assim era possível exercer um papel de importância dentro da sociedade. Mas, vale lembrar aqui, que o sucesso de Michael aconteceu antes, durante e depois das mudanças na cor da pele.

Durante muitos anos os negros lutaram por igualdade, por dizimar o preconceito. Enquanto os branco sustentavam a superioridade e o fato de conseguirem sempre os melhores cargos. Atualmente, como uma forma de compensar essa disparidade, existem várias políticas de auxílio para os negros, como é o caso das cotas raciais, com maior peso em universidades públicas e federais do país.

Fato esse que é muito discutido pelo brancos como uma forma de auxílio e que não deveria existir. Eles afirmam, com pouco conhecimento, que todos os estudantes que tentam uma vaga em universidades deveriam ser avaliados da mesma forma. O que não se debate é a falta de oportunidade e de aprendizado dos negros periféricos que sofrem com escolas precárias e professores mal capacitados.

Posto o contexto histórico atual do Brasil em evidência, vem a provocação. Será que ser negro, hoje no Brasil, é uma forma de ganhar notoriedade e maiores oportunidades no mercado de trabalho?

Já ouvi, de mais de uma boca branca, que gostaria de ser negro para ter tantas oportunidades assim. Mas será que essas afirmações sabem o contexto por trás delas? O peso que traz a cor da pele mais escura?

Graças aos deuses, para quem é de deuses, que eu nunca sofri nada muito traumático quando jovem. Não nego que já recebi comentário  por ter o nariz mais grosso ou por ter a cor mais escura da família – inclusive comentários do tipo, “adotada”, “tua mãe te pegou de um macaco”. Mas, desde nova, aprendi a ignorar coisas ruins e só absorver as boas. Devo isso à minha avó.

Por falar nela, ela foi a principal responsável por me fazer entender a minha cor da pele. Como disse, sou a de pele mais escura da família e, por sermos de maioria Espíritas, acreditamos que cada coisa tem um porquê. Minha avó era preconceituosa, sempre foi, mas lutava contra isso desde sua maturidade. Talvez por conta da criação, ou dos exemplos que recebia dentro e fora de casa, ela sempre teve muitos problemas com pessoas “de cor” e homossexuais.

Depois que nasci, volta e meia ela me repetia a mesma ladainha. “Acredito que Deus tenha me mandado você para eu poder trabalhar isso em mim e ser alguém melhor”. Ser alguém melhor… Acredito que seja isso que todos os negros, que algum dia já sofreram preconceito, querem que a pessoa que lhe dirigiu a palavra se torne. Uma pessoa melhor.

Não sofri agressão e nem perdi uma entrevista de emprego para um branco. Mas sei que isso já ocorreu com alguém e que isso afeta a vida de muita gente. A luta negra vem ganhando destaque gradativamente. E isso chama atenção. E o que chama a atenção é alvo de cobiça, ou de haters. Existem aqueles que ainda batem o pé e dizem que lugar de negro é na senzala. Para esses eu só desejo que um dia se tornem alguém melhor.

Mas o texto fala daqueles que vêem na luta negra uma forma de degrau para se destacar. Na entrevista com os pais de Rachel, foi apresentada uma foto da mulher adolescente. Uma jovem, LOIRA, de olhos VERDES e pele CLARA. Não estou aqui desmerecendo o trabalho que a professora faz na faculdade e que a pesquisadora faz sobre a história da África.

O que me intriga é a auto-afirmação que ela faz em ser negra e que por isso luta pelo direitos dos negros. Mas será que ela entende mesmo os problemas que os negros já passaram e ainda passam? Será que já chegaram na frente dela e perguntaram se ela era filha de macaco? Ou porque ela não alisava o cabelo?

Para mim, ser negro é mais do que uma questão APENAS de identidade, existe ainda a identificação em relação aos problemas enfrentados no dia a dia.