A mídia ainda tem o poder de definir os assuntos que considera de interesse público, assuntos esses que poderão vir a ser discutidas por toda a sociedade. É exatamente por conta de tal poder que os meios de comunicação de massa, por vezes, são tão cultuados por determinados extratos sociais, justamente por ter a capacidade de fazer a mediação entre as esferas privada e pública.

Essa agenda midiática, no entanto, não é tão “fiel” aos fatos sociais ou acontecimentos jornalísticos do cotidiano. Não podemos deixar de refletir que há certos assuntos que são ocultados, ou simplesmente ignorados pelos meios de comunicação. Fatos sociais que não ascendem ao debate público. Desse modo, as pessoas podem até desconhecer sua existência, ou não reconhecer sua importância.

Contudo, para além de “invisibilizar” certos temas, há também uma função extremamente perniciosa para o exercício da cidadania que a mídia tende a exercer: àquela que apresenta a realidade de modo distorcido, reforçando estereótipos e reproduzindo preconceitos. Estamos, aqui, tratando de dois fenômenos que ocorrem quando discutimos a relação das mulheres, sobretudo as negras, com os meios de comunicação.

Também por conta da sua origem histórica, a imprensa brasileira, ao que parece, construiu, ao longo dos anos, uma postura discriminatória na hora de abordar a questão racial. Percebemos que, mesmo depois de mais de 120 anos depois da promulgação da Lei Áurea, negros e negras ainda são deixados à margem da sociedade e dificilmente retratados de forma isenta pela mídia.

Nas novelas, por exemplo, os poucos atores negros interpretam personagens de destaque na trama. A Rede Globo, que apresenta a teledramaturgia como destaque na sua programação, teve pouquíssimas protagonistas negras em suas novelas nos seus 50 anos de história. Temos, nesse caso, o perigo em compreender que tais produções representam o “espelho” da nossa sociedade, o que leva a pesquisadora Maria Aparecida da Silva Bento a perceber que “a televisão está produzindo uma subjetividade racista (…).” (BENTO, 2009).  Tal constatação faz sentido quando imaginamos que muitas jovens negras, que sonham exercer a profissão de atriz, dificilmente encontrarão referências, uma autoimagem afirmativa nas telenovelas.

Esse tipo de produção midiática encontra resistência na organização das mulheres negras feministas. A pesquisadora do Instituto da Mulher Negra – Geledés, Nilza Iraci, recomenda ações para que o movimento tenha condições de incidir politicamente nos percursos que a mídia tende a seguir. Para ela, o feminismo negro precisa: “Produzir o contra-discurso, promover o intercâmbio de valores sociais, reafirmar a identidade de toda uma população excluída, representa um dos grandes desafios sociais frente a essa nova era da informação” (IRACI, 2009).

Na próxima sexta feira, 28 de agosto de 2017, a novela Da Cor do Pecado completará 13 anos da sua estreia no horário das 19 horas. Mais de uma década passou e a representação da mulher negra na TV e, no caso, nas telenovelas continua sem realmente representar a mulher negra.

Nessa semana comemoramos o dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha, uma semana marcada por lutas e batalhas. Uma dessas lutas é por uma representação que, não só agrade, mas que seja fiel a sua realidade. A escritora nigeriana, Chimamanda Adichie afirmou, em uma palestra do TED: “mostre um povo como uma coisa, repetidamente, e será o que ele se tornará”. Chega dessa representação, somos mais do que estão mostrando.