“Existem apenas duas classes sociais, as do que não comem e as dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem.”

Caso estivesse vivo, Milton Santos completaria hoje 92 anos de idade. Ele nos deixou no início do século, em junho de 2001. Baiano de Brotas de Macaúbas, seu pai sempre trazia à lembrança de Milton o fato da família ser descendente de negros em situação de escravidão e a importância de se manter focado nos estudos. Graduou-se em Direito, mas tinha, desde a juventude, uma forte ligação com a geografia, sendo professor desde os 15 anos, dando aulas da disciplina em cursos preparatórios. Não demorou muito e Milton conseguiu seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, França. Voltou ao Brasil, ingressou na política, foi exilado na época da ditadura e depois retorna para lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, até 1983. Ainda ministrou aulas na Universidade de São Paulo e na Universidade Católica de Salvador.

Reconhecido como um dos maiores geógrafos da história, Milton conseguiu inúmeros prêmios incluindo o que pode ser considerado o prêmio Nobel da Geografia: o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud de Paris em 1° de outubro de 1994.

“A globalização mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade pública e particular a um quase nada.”

Milton teve sua obra caracterizada pela crítica ao sistema capitalista e por trazer aos olhos de todos os malefícios da globalização, na obra que o deixa famoso para além da geografia. Em Por uma outra globalização Milton traz a luz de todos que a globalização não é a “fábula” que nos contam, como ela é “perversa” na prática e mostra ainda uma “globalização possível”, que seria a maneira mais adequada de ocorrer esse processo.

Milton Santos, geógrafo, negro.

Apesar de ter inúmeras conquistas e ser reconhecidamente o maior nome da geografia no Brasil, Milton ainda tem sua bibliografia pouco difundida nos cursos de graduação e seus textos têm pouca penetração em livros do ensino médio. Mas por que isso ainda acontece? Um cientista com enorme reconhecimento internacional, mas que muitas vezes é apagado dentro do seu próprio país?

 

 

“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir.”

 Aquilo que impera ainda nas salas de aula é o domínio colonial. O que construímos enquanto nação e as nossas produções enquanto indivíduos brasileiros ainda vivem à margem, principalmente dos autores negros. Façamos um pequeno teste: pergunte numa turma de faculdade ou de ensino médio. Quantos autores negros vocês já leram? Essa resposta vai espantar (ou não). Quantos conhecem os textos de Milton Santos? Ou de Carolina Maria de Jesus? Ou de Conceição Evaristo?

Será que é preciso que o buscador do Google faça uma homenagem no dia do seu nascimento para que abramos os olhos para todos os feitos de Milton Santos?! É preciso se questionar.

“Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação.”