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O mês de novembro é sem dúvida um teste a paciência de muitos negros. É o mês que a galera branca questiona a existência de uma raça, é o mês de compartilhar o vídeo do Morgan Freeman falando que acha um absurdo a data e é o mês de gritar que todos somos humanos. É um discurso repetitivo, principalmente nas redes sociais. Essa herança da cultura do silenciamento da identidade negra não é novidade.

Na verdade, ela começa logo após a abolição da escravatura no país – 130 anos atrás – quando o governo brasileiro começou a incentivar a entrada de europeus imigrantes na tentativa de ‘embranquecer’ a população. Eu sempre interpreto esse ato como um certo desespero dos líderes brancos da época de que a população de pessoas recém libertas da escravidão se unisse enquanto povo ou nação e reivindicassem seus direitos de forma violenta e incisiva. De acordo com censo feito no ano de 1872, 58% da população brasileira eram de pessoas negras, divididos entre negro alforriados e ainda escravos.

REPRODUÇÃO/BIBLIOTECA IBGE

O estado agiu rapidamente após a abolição na tentativa de literalmente apagar da história dessas pessoas. A nível de comparação, em 350 anos de tráfico negreiro, entraram no país cerca de 4 milhões de africanos. Entre 1870 e 1930 vieram morar aqui praticamente 4 milhões de imigrantes europeus. Outra atitude bastante eficaz do governo foi a criminalização da cultura afrodescendente. De 1890 a 1937 a Capoeira foi proibida por lei e religiões de matriz africana eram crime passível de pena de morte desde 1830. O medo em está ligado com a cultura de seus antepassados causou uma grande ferida na identidade dos negros do Brasil. Afinal, uma homem que não está em contato com sua ancestralidade, com sua história acaba se comportando de acordo com a realidade onde vive. E a realidade dos negros deste país é bastante complicada ainda hoje. O apagamento(ou a tentativa) de nossas raízes parecia um plano perfeito para manter a comunidade em situação de vulnerabilidade e até hoje sofremos as consequências disso. O reconhecimento da luta de negros como Zumbi dos Palmares na luta pela liberdade e a homenagem da data de sua morte – 20 de novembro de 1695 – é uma ação afirmativa que coloca a população negra como protagonista dessa batalha. Deixando de lado a princesa Isabel que não fez mais do que um acordo político na época.

Sempre que alguém retweetar que deveria haver o dia da consciência humana, essa pessoa está só reproduzindo uma lógica centenária de apagamento, seja de forma consciente ou não. Reproduzir essa lógica é uma dos mecanismos para mascarar o racismo. É sempre um desafio saber se é ignorância ou mau-caratismo dos reprodutores desses post. A gente acaba tendo que respirar fundo e tendo que ter sabedoria de comprar ou não uma briga seja on ou offline. Nem sempre vale a pena.

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