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Eu, mulher preta

Nem sempre foi fácil falar das minhas experiências como mulher negra, primeiro que no início da minha vida não pensava em mim como tal. Muito disso tem a ver com a educação que recebi, desde criança fui ensinada a me considerar uma pessoa morena. Segundo alguns familiares, para ser negra precisaria ter muito mais que uma pele escura, acrescentando ao tom da pele o cabelo crespo, por exemplo.  

Então passei muito tempo me identificando como morena, e sem entender o porquê de não ver pessoas como eu em alguns lugares. Durante a infância, tinha o desejo de aprender a dançar ballet — e isso é algo muito significativo para mim — porque nem ao menos verbalizei essa intenção. O  motivo de não ter comunicado a ninguém meu desejo foi o fato de que, na época, não conhecia nem uma bailarina negra; o que me fez pensar que ballet combinava apenas com pessoas brancas.  

Durante a minha infância e adolescência, percebi o quanto a cultura negra era criminalizada e como os traços das pessoas pretas eram considerados feios. E ao mesmo tempo que me feria, internalizava essas informações e as reproduzia.

Então, sem perceber, tentava me encaixar no padrão branco, que sempre foi inalcançável, gerando, por um tempo, frustrações. Muitas vezes, imaginava que talvez se tivesse nascido branca me sentiria mais bonita. E todas essas questões se passavam em um momento em que nem me considerava negra. 

Então, só vim pensar em mim como mulher preta nos primeiros anos da universidade. As amarras criadas pelo racismo estrutural foram se rompendo aos poucos, não foi nada parecido com um passe de mágica. Tudo ocorreu devagar. Na medida que aprofundava meus conhecimentos sobre a cultura afro, passei a valorizar a minha história. 

Em relação à autoestima, percebo que quanto mais me aceito como sou me sinto melhor. Por muito tempo alisei o cabelo, uma orientação que recebi de uma tia, não a culpo. Na época, pouco se sabia de como cuidar dos cabelos cacheados ou crespos. O fato é que cheguei em um ponto que não lembrava de como meu cabelo era ao natural, o que me ajudou a decidir passar pela transição capilar.  

Esse período não foi fácil. Muitas vezes pensei em desistir, recebi críticas de todos os lados, mas o desejo de seguir com o meu objetivo foi maior. O engraçado, que durante os dois anos de transição, não só o meu cabelo mudava, como também o meu entendimento sobre o que é ser uma mulher negra. 

Este ano finalmente pude finalizar a transição. A sensação foi de libertação e empoderamento. Posso usar tais palavras para definir todas as vezes que me liberto dos julgamentos, me permitindo a aproximação e a vivência plena da cultura do meu povo.

Por Aline Marcela

Obirin
Nasci da ideia de disseminar e aproximar as ações de grupos e pessoas que estão na luta pela igualdade racial.

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