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Ela é pretinha

“Ela é pretinha, mamãe. Pretinha igual a mim!”

Essa foi a primeira vez em que a minha cor foi dita publicamente. No dia 28 de maio de 1989, às 19 horas e 15 minutos, num hospital da região metropolitana do Recife. Era um domingo, e pela tradição cristã, seria dia de dar graças à Deus, em forma de culto.

Foi este o contexto em que nasci sendo a menina pretinha amada e protegida no seu ambiente familiar. Admirar os meus cabelos cacheados e o meu nariz “amassadinho” fazia parte da rotina da minha família. 

Aos domingos, iria à igreja, onde a maioria das pessoas também eram negras. Onde abraçar apertado, ter sorrisos grandes e bem abertos, gargalhadas cheias de afeto, se misturavam aos louvores cantados em alta voz. Onde ouvir sobre os milagres relatados biblicamente era extremamente importante, e precisavam ser glorificados e ovacionados. Onde estar juntos em comunidade era também fazer almoços fartos e ter muitas pessoas em volta da mesa, porque comer é manifestação da gratidão por todas as bênçãos que recebíamos. 

Durante a semana, iria à escola, onde também a maioria das crianças eram negras. O ritual de acordar e se preparar para o dia sempre foi regado de músicas de corais, quartetos e grupos infantis. A música sempre fez parte da construção dos dias; e mesmo que eu não notasse, a maioria das músicas que ouvíamos eram cantadas por pessoas negras. 

Ter referenciais de pessoas negras sempre foi considerado muito importante. 

Era um bairro periférico, e na COHAB, onde eu morava, tudo parecia ser perfeito. Aquele lugar onde todas as pessoas se conheciam e conviviam bem, os  vizinhos se tornavam uma extensão da família. 

Crescer naquele lugar era fácil e feliz, e está resguardado na inocência da infância. Por muito tempo fez muito bem. 

Esse lugar começou a mudar quando, pela primeira vez, um menino da quadra vizinha, o Serginho, morreu. 

Mas ele não só morreu. Não foi um dia em que ele acordou e não se sentiu bem. O Serginho foi assassinado. A mãe do Serginho chorava desesperada e gritava demais, mas, por mais que tentássemos, meus amigos e eu não conseguíamos entender por que o Serginho estava ali no chão, coberto de sangue.

Serginho foi só o primeiro de uma guerra que começou no meu lugar perfeito. Dos dias, meses e anos que se seguiram, muitos foram os adolescentes e jovens que morreram ali. Todas as vezes que os carros de polícia subiam, minha mãe me mandava ir para casa. Minha avó orava. Meu pai se desesperava, tentando sair dali e proteger os três filhos. 

Quando finalmente saímos de lá, houve muito choro. 
Dos adultos, o alívio de um recomeço. 
Das crianças, a saudade que deixaria.
Não compreender o peso de sermos crianças e adolescentes negros nos fez sofrer demais ao deixar aquele lugar.  

Não havia mais a igreja com muito barulho e muita gente. Não havia mais os almoços com muita fartura e muita gente em volta da mesa. Éramos apenas nós, tentando sobreviver. 

Os primeiros dias foram os mais difíceis. O meu sono sempre foi leve, e dormir num ambiente novo precisou de tempo para eu me acostumar. Numa dessas noites insones no novo espaço, que em nada parecia com o lugar perfeito de antes, do pequeno terraço, avistei um homem;
Ele estava fardado. Em uma das mãos, uma arma.
Tentei não emitir som.
Falhei.
Fui vista.
O homem me olhou e, com desprezo, disse: “É só uma pretinha!”

Por Elis Lages

Obirin
Nasci da ideia de disseminar e aproximar as ações de grupos e pessoas que estão na luta pela igualdade racial.

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