Entender movimentos de mídia como reflexo do pensamento de parcela da sociedade é essencial para entender o que é cyberpunk. Nascido como forma de crítica ao otimismo cego da ficção cientifica da década de 30, o movimento foi tomando corpo depois dos ataques nucleares ao Japão em 1945. Claro que a propaganda em torno dos feitos das nações vencedoras da segunda guerra mundial era enorme. Já em meados da década de 60, o cyberpunk ganha característica de horror, tocando em questões sociais devido a influência do movimento dos direitos civis além de questões ambientais. Apesar de algumas obras manterem o otimismo tecnológico vivo, como Star Wars, a maior parte dos autores compreendeu que, avanço tecnológico não significa necessariamente avanço social. A degradação social causada pela ganância e corrupção de governos totalitários e corporações lobistas viraram um foco central em narrativas cyberpunk além de, a tecnologia como instrumento de controle e repressão da grande massa. 

Iniciado com o livro Neuromancer (1984), parece ser de praxe que as histórias de sucesso, tanto na literatura quanto no cinema sejam ambientadas em realidades anglo-americanas. A era da informação iniciada nos anos 80 trouxe uma série de efeitos colaterais. Informação passa a ser um gerador direto de valor econômico. A informação sobre o futuro, portanto, circula como mercadoria cada vez mais importante. A ficção científica é agora um departamento de pesquisa e desenvolvimento dentro de uma indústria de futuros que sonha com a previsão e controle do amanhã. Se tornando mais do que uma ingênua previsão para a futuro distante, ou como um projeto utópico para imaginar realidades sociais alternativas. O negócio corporativo procura administrar o desconhecido através de decisões baseadas em cenários, enquanto a sociedade civil responde ao choque futuro através de hábitos – emparelhado pela ficção científica. Tão importante quanto a tecnologia, é o hábito que se vai atribuir a ela. E nisso o imaginário criado pela mídia é fundamental. Por isso a indústria mainstream acabou abraçando o cyberpunk.

O universo cyberpunk branco e europeu vem carregado de predições racistas e pouco representativas de qualquer realidade que não seja Nova York sendo destruída por robôs. Com a cultura ignorada, muito artistas contemporâneos africanos ou descendentes, entenderam a importância de uma intervenção política. Afrofuturismo é não só o direito de contar a própria história sob as tradições e costumes do continente africano, como também, imaginar uma utopia ou distopia do próprio futuro africano. O Afrofuturismo se apresenta, então, como uma forma de condicionar o futuro sobre os aspectos e desejos do povo negro. Samuel Delany, Octavia Butler, Janelle MonaeLee, Scratch Perry, Frances Bodomo entre outros artistas atuam de forma incisiva na ficção cientifica afro, seja na música, em livros ou artigos acadêmicos. O quadrinho Pantera Negra de Stan Lee é também um bom exemplo de obra afrofuturista. Se você ainda não conhecia este movimento recomendo o ensaio de Mark Dery, Black To The Future: ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra. Sem querer delimitar o movimento, mas, considero o Afrofuturismo o cyberpunk do próprio cyberpunk. Um forma de apropriação cultural do por vir. Porque afinal, se Deus é negra, então o futuro também deve ser.

 

Mallu Oliveira