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Lágrimas interrompidas: como as estruturas de poder moldam as masculinidades negras? Parte 1

SOMOS CHIRONS?

Chiron já é um homem crescido e  com multicamadas de problemas (e muito possivelmente de neuroses) que a vida lhe trouxe. A infância do pequeno Chiron, que cresceu e se constituiu homem em um subúrbio, em Miami, já passou e o tempo moldou a sua identidade enquanto homem negro norte-americano. Ele agora conversa com sua mãe sobre as feridas do seu passado constitutivo e, nesse processo, ousa quebrar os paradigmas, estereótipos e totens que lhe foram impostos pelas estruturas de poder racistas de seu país: Chiron chora. O terceiro ato de Moonlight (2016) não é só uma belíssima conclusão sobre as identidades de vários e múltiplos homens negros nos Estados Unidos, mas também se configura como a maturação do personagem e de suas ações e reações a um estado de coisas: a dor da experiência humana negra, periférica e subalterna em um sistema capitalista e neoliberal.

Subvertendo uma máxima conservadora brasileira, posso dizer com convicção que o choro não é “livre” para algumas pessoas. Tal ato demanda algum tipo de verbalização, sensibilidade ou acesso a si e ao sentimentos de si, que muitas vezes muitos homens e, principalmente, homens negros não possuem. Como diria Gonzaguinha em uma de suas músicas: “Um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas, precisa de carinho, precisa de um abraço, da própria candura…”. A masculinidade aos moldes do patriarcalismo judaico-cristão indica, constrói e naturaliza o ideal que o chorar está associado ao feminino, à delicadeza, à mulher. Logo, tal ato deve, por conseguinte, ser evitado. Quantas vezes, não ouvi que “homem não chora” e que “chorar é coisa de mulherzinha” ou “de viado”.

Nesta primeira parte, dos dois momentos onde eu comentarei sobre masculinidades negras, eu comento sobre a hierarquização de gênero, nas sociedades escravocratas, focando nos homens de cor.  O “não chore!” e derivados, que mencionei anteriormente, nos interessa, porque diz algo sobre as formas de construção de significados (culturais) para as diferenças sexuais, dando sentido para essas e, consequentemente, posicionando-as dentro de relações hierárquicas: relações de poder — compartilho, portanto, em parte, com o pensamento da historiadora Joan Scott. Logo, em uma sociedade com esse passado, a categoria de manifestação de poder de homens se diferencia pelo fator raça.

Cena de Moonlight: A24/Divulgação)

Desde crianças, os homens negros são socializados em um espaço que espera virilidade, força e um comportamento consigo e com os outros sintonizado com tais conceitos. Nesse ambiente estruturado pelos ideais de masculinidade onde o homem é a figura de poder (ou podemos até dizer como o homem como poder naturalizado), o machismo, sexismo e, principalmente, o racismo se intersecionalizam moldando o “ideal de eu”, o “eu ideal” e várias outras estruturas egóicas e instâncias da mente desses homens. A máxima “homem não chora” que desvela as posições e expectativas de poder de uma sociedade machista se alia aos símbolos que homens negros estão associados, a  exemplo, do fetiche pelo seu componente fálico (o ideal de homem negro “fudedor” ou de “negão” propriamente dito).

Pode parecer distante e/ou algum tipo de argumentação fraca, mas a experiência masculina negra moldada dentro desses jogos contidianos de expectativas-ações compõem em conjunto com um cenário de não comunicação e/ou pouca comunicação, um ambiente fértil para o que vamos chamar aqui de silenciamento de lágrimas. É válido ressaltar que muitos homens negros podem sofrer disso mesmo que outros não o façam. Isso porque o nível da relações interpessoais, na família nuclear, consigo (subjetividade, subjetivação e o narcisismo), no trabalho, sexuais e várias outras conexões sociais intensificam e/ou amenizam o homem moldado para silenciar-se de lágrimas.

DEFINIÇÃO POR NEGAÇÃO

Cena de Moonlight: A24/Divulgação

Mas estou escrevendo e argumentando uma série de problemáticas e talvez você pode estar se perguntando

“homens brancos também sofrem com o machismo por conta da masculinidade autodestrutiva… Então, qual o porquê de fazer uma separação entre homens brancos e negros? Qual a diferença entre o não chorar branco e o não chorar negro?”

Fica claro o nível de operação destrutiva do machismo para os próprios homens quando o ato de não ir ao médico por “ser forte” causa uma diferença abissal entre a expectativa de vidas entre homens e mulheres. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2017, os homens fizeram 80 milhões de consultas a menos que as mulheres e  a expectativa de vida ao nascer, em 2019, é de 80 anos para mulheres e de 73 anos para homens, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No entanto, o fator raça é um componente muito importante para avaliarmos as diferentes nuances das operações das masculinidades no nível da qualidade de vida, do risco de vida e da capacidade de evasão de emoções.

Cena de Moonlight: A24/Divulgação

Em sua clássica obra “Pele negra, máscaras brancas”, o psicanalista Franz Fanon alerta que para a branquitude o “preto é um animal, o preto é ruim, o preto é malvado, o preto é feio; olhe, um preto!” (FANON, 2008, p. 106-107). O autor deixa claro que o discurso hegemônico branco de superioridade em detrimento ao ser humano negro é uma construção simbólica e materialmente repressiva carregada de estigma de significantes negativos com o intuito de estabelecer as regras de poder, os modos de poder: as relações de poder. Sobre o corpo Fanon (2008, p. 104) indica que depois tivemos de enfrentar o olhar branco. Um peso inusitado nos oprimiu. O mundo verdadeiro invadia o nosso pedaço.

No mundo branco, o homem de cor encontra dificuldades na elaboração de seu esquema corporal. O conhecimento do corpo é unicamente uma atividade de negação. É um conhecimento em terceira pessoa.

Para esse autor, em torno do corpo negro uma série de complexas e densas incertezas impera. Eu não posso correr com muita intensidade para pegar um ônibus para não pensarem que irei assaltar ninguém, não posso esquecer a identidade e sair de casa para não acontecer algo com as forças de repressão do estado… eu não posso isso, eu não posso aquilo. Nesse sentido, esses muitos exemplos indicam os não espaços e os não movimentos que os corpos de pessoas de cor não podem fazer. Enquanto, entendemos as regras do jogo como afrodescentes brasileiros através de uma definição negativa tendo os seres humanos brancos como objetos de “ideal de eu”, isto é, sou negro porque não ou branco, gosto de xxx porque não gosto de xxxx, a definição negativa opera no nível de uma socialização dos afetos, normativas e acordos tácitos e inúmeras outras operações.

Como chorar se o seu corpo é, paradoxalmente, um objeto externo a si? Como saber quem somos se não sabemos quem somos quando estamos com nós mesmos?

Cena final de Moonlight: A24/Divulgação

Existir é afetar-se, é mudar a partir do encontro com o outro. E o outro racista molda um ego antecipado, um ego que se previne da dor que ainda não chegou. A existência molda!

Fanon completaria este meu diálogo falando “é preciso recuar um pouco. Faço todos esses gestos não por hábito, mas por um conhecimento implícito. Lenta construção de meu eu enquanto corpo, no seio de um mundo espacial e temporal, tal parece ser o esquema. Este não se impõe a mim, é mais uma estruturação definitiva do eu e do mundo – definitiva, pois entre meu corpo e o mundo se estabelece uma dialética efetiva” (FANON, 2008, p. 104). Somos cercados por instrumentos e tecnologias de opressão tangíveis e intangíveis, o ser negro/o corpo negro sofre em diversas dimensões. Somos Chirons querendo quebrar as amarras que impedem o acesso ao somos eus e, por conseguinte, às nossas lágrimas silenciadas.

Lucas Daniel
Lucas é fotógrafo, produtor cultural, roteirista e escreve sobre narrativas na internet centralizando as relações étnico raciais como estruturantes e estruturas da realidade social, política e cultural brasileira. Ele procura com as produções e os textos desvendar e jogar luz sobre as iniquidades sociais e raciais a partir do conceito de justiça social ligado a interdisciplinaridade entre psicanálise e comunicação.

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