fbpx
Início Matérias Cansados demais para existir

Cansados demais para existir

Antes de escrever imagino a minha existência, que ainda não é, mas quando você me lê começo a tomar forma e agora existo, porque estou aqui contigo. Imagina um rio de lágrimas. Nele nada flutua, tudo emerge. Sua correnteza é forte, sua cor límpida, e do tremor, do odor de seus ossos emana água. Esbravejo de volta porque tenho medo de sorrir. Guardo para mim as impressões deste grande rio, engolindo seco meu reflexo, tomando como forma a água, que me perpassa, dos meus olhos ao rosto. Ela, a água, que caminha entre meus pequeninos espaços e moléculas, esperando um abraço. Faço de tudo para aos poucos submergir neste espaço úmido, porque estou seco, triste e rachado. E a umidade de dias chuvosos não me é suficiente. Preciso chorar um rio. Preciso sentir essa correnteza. “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”[1]. Rio de lágrimas que sou, me movimento preso a mim. Estou feliz porque você esperou me apresentar, e suspiro aliviado sabendo que outra pessoa, além de mim, conhece as amarras líquidas que me fogem dos olhos. Estou feliz por compartilhar minha existência contigo, querido leitor.

Mas o fato é que é difícil existir: ser em plenitude. Aquela “plenitude sem fulminação”[2], aquele momento em que andamos só na noite escura de madrugada e nos sentimos abraçados pela única e verdadeira presença de um ser: o eu. Porque ser nós por muito tempo dói. Porque sentir muita dor dói. Porque o porquê não existe e somos eu. Queria compartilhar que você é um eu e desde do nosso último encontro, estou queimado pela minha ira e resolvi descansar. 

Suspirei fundo, tentando viver. Mas um terremoto me acordou e não há tremor maior que um abalo antes da esperança, não existe tristeza mais potente tal qual a precedida pela combustão de alegria. Me queimei com palavras. Só sobraram labaredas. Por isso, decidi te escrever sobre nós, os cansados demais para existir. Há fundamentalmente um vazio em nossos corações: dois mil e vinte (para ser mais exato), esse misto de tragédia e tempo.

Da minha janela vejo a chuva, e estou sendo deixado pelo eu que anda livre à noite, aquele feliz por ser só, que pode “poder ser em sua potência”, aquela pessoa de sorriso e lágrimas no rosto: “está tudo bem”. Quem pode “ser em sua potência” hoje? Nunca mais. Nunca mais ouvir uma voz ecoando em si um “não”. A negação da existência, o não vínculo: estar solitário sem ao menos existir por si e para si. Por quanto tempo sentir um luto eterno? Minha finitude é suficiente? Parece que desde 2020 esse rio de mim parou. Na pandemia, não existe mais eu, nem vida. Pequenos momentos de morte preenchem o espaço que antes era movimento. Tenho complexo de grandeza: não cabendo aqui, fiz meu mundo e espero morrer nele — mesmo que não mais exista.  

Viver é dizer adeus e abraçar o sonho. É fugir do fim em pleno começo, se perdendo na linha tênue de nós. Não sou suficiente, então sou nós, mas preciso primeiro ser eu em minha potência. Quero mais que a certeza de rosas nas lápides e sangue no morro. Quero sangue nas veias. Quero vida. Quero um (verdadeiro) rio.

Te escrevo em choque para te jogar do precipício. E a cada sílaba, transformada em voz, sua mente cai em escuridão. Cada sílaba forma palavras, que formam frases, e depois períodos de tempo. E é isso que me preocupa: o escuro do tempo, o não fluir aqui dentro e o porvir. Já fazem anos que estou preso no ontem, e sinto correntes prendendo minhas pernas. São palavras? O que poderia escrever sobre a morte? Nada. Posso escrever em minha sobrevida: “esperar é esperança? Esperar porquê? Esperar não ser o rio que sou”. Cansar é esperar existindo, mesmo que ainda vivo não mais se exista, vivendo em cansaços. Cansados demais para chorar. Cansados demais para existir, nem ao menos para estar de fato comigo. Cansados demais para existir. Cansados demais para existir. Existir…

[1] Rosa Luxemburgo

[2] Clarice Lispector em Água viva


Todo fim de mês eu, Lucas, estou aqui nesta coluna, escrevendo ensaios poéticos sobre aleatoriedades do devir negro no Brasil. Tamanha artimanha não seria possível senão pelo carinho e apoio do coletivo Obirin. Indo de eventos traumáticos (como o caso de Evaldo) às mais diversas reflexões, que escapam da minha mente em direção ao que se pode chamar de texto, procuro trazer poesia em prosa com (e não sobre) a dor. Grande abraço e até o próximo mês <3

Lucas Daniel
Lucas é fotógrafo, produtor cultural, roteirista e escreve sobre narrativas na internet centralizando as relações étnico raciais como estruturantes e estruturas da realidade social, política e cultural brasileira. Ele procura com as produções e os textos desvendar e jogar luz sobre as iniquidades sociais e raciais a partir do conceito de justiça social ligado a interdisciplinaridade entre psicanálise e comunicação.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.