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Big Brother Brasil: um espaço para questões raciais?

Desde 2002 no ar pela Rede Globo, o Big Brother Brasil (BBB) é o reality show de maior sucesso nacional e, sem dúvidas, conta com um público fiel que espera todo ano para conhecer os personagens que farão parte de cada edição do programa. A ideia da atração surgiu na Holanda em 1999 e tem seu título inspirado na obra 1984 de George Orwell. 1984 conta a história de uma sociedade que era governada por um tirano chamado de “Big Brother” e que vigiava e ouvia a população nas ruas, em casa, no trabalho, nas praças, em todos os lugares.

A obra de Orwell é bastante interessante e traz alguns conceitos que, claramente, são aplicados ao BBB. Por exemplo, o Ministério da Verdade, o órgão do governo que filtra as informações a serem repassadas à sociedade. Nem todas as imagens são transmitidas a todos, apenas aquilo que o grande comandante, “Big Brother”, acha pertinente.

Crédito: University of Wisconsin

De 2002 a 2020, o BBB tem tentado ao máximo emular o confinamento da casa com a realidade de “fora da casa”. Com o passar do tempo, é possível perceber como tem se tornado cada vez mais diversificado o casting dos participantes.  A edição 20 do programa nos apresentou uma seleção de personagens diferentes dos anteriores, temos a figura das subcelebridades, dos influencers e das “pessoas comuns”. 

Claramente, o perfil dos personagens está diretamente ligado ao que faz sucesso e gera discussão nas redes sociais. E não estou aqui fazendo juízo de valor com relação ao programa. Como produto de uma indústria cultural como a TV, ele está posto para entreter e consegue fazer isso com maestria. O que vamos analisar aqui são as reações exacerbadas do público e as análises superficiais que envolvem questões raciais.

Big Brother Brasil 19 é a vitória do racismo?

Costumo achar que as questões raciais devem ser seriamente discutidas e abordadas. Temos mais de 200 anos que a escravidão foi abolida no Brasil, mas o discurso mentiroso sobre a democracia racial imperou com tanta força, que temos um deficit de no mínimo uns 100 anos de debate. Dito isto, é hora de contextualizar com a realidade do Big Brother.

Em edições passadas, pouco se ouvia falar de temas como machismo, racismo, intolerância religiosa, mas nas últimas edições essa discussão tem se tornado o carro chefe do programa. Isso graças à seleção dos personagens, sim, dos personagens, gente. O que nós vemos na tela da TV não são pessoas agindo de acordo com uma égide moral de princípios. São participantes de um programa que devem convencer o público de que são merecedores do prêmio milionário que será dado àquele que mais agradar quem assiste. 

Isso que precisamos ter em mente, o que mais se aproximar do desejo da maioria do público, vence. Na edição 19, por exemplo, a vencedora foi a Paula von Sperling que, dentro do programa, tinha um comportamento racista, sem meias palavras e meias ações. A personagem Paula era racista e isso serviu para ela ser a vencedora, porque seu comportamento agradou uma onda crescente conservadora e que via na Paula uma personagem sem papas na língua, sem medo de falar, que não era “politicamente correta”.

Na mesma edição, havia participantes negros, como o cientista político Rodrigo França, que tinha discursos claramente opostos ao de Paula, mas não foi páreo para a vencedora. O que vale no BBB é agradar o público que vota, lembre-se. A vitória da Paula mostrou que o Brasil é formado por uma população racista? Até acho que seja, mas não por isso. A vitória da Paula não significa muito num universo de um país que mata tantos jovens negros, ou que tem poucos negros em cargos de poder ou com acesso à universidades. O que nos torna uma sociedade altamente racista é a nossa estrutura social.

O embate Babu x Thelma?

Crédito: Reprodução/Globo

Finalmente chegamos à edição atual do programa que trouxe dois participantes negros, mas de perfis totalmente distintos. O ator Babu Santana e a médica Thelma Assis. Eles são dois participantes negros que optaram por seguir papéis distintos no programa. Babu, sempre que pode, conversa com os outros participantes sobre questões raciais, traz à tona o debate sobre ser negro na sociedade, sobre a vida em comunidades carentes. A Thelma não faz isso, ela é mais discreta, mas quando é preciso sempre busca reforçar sua negritude e o fato de ter se tornado médica, uma profissão majoritariamente ocupada por brancos, no Brasil. 

Pronto, o que aconteceu há algumas semanas foi o fato da Thelma ter votado no Babu para o paredão do BBB e isso ter gerado uma discussão enorme nas redes sociais, gerando, inclusive, comentários negativos em relação à participante. O ponto aqui é o seguinte, a personagem Thelma tem o total direito de votar no personagem Babu, o que eles vivem na casa do BBB é unicamente uma situação dentro de um programa de TV que busca simular a realidade, mas não é a realidade. Não devemos trazer aquilo que acontece numa situação tão adversa da realidade e fazer julgamentos a partir disso. 

O Big Brother Brasil é apenas um programa de entretenimento, ele não vai afetar em nada a luta do movimento negro. Eu não acredito que ele colabore por dar visibilidade ao debate, penso que ele até prejudique por espetacularizar demais a discussão. A visibilidade que se dá aos atos racistas é muito maior do que o espaço à conscientização das pessoas. Mas repito, o BBB não é o espaço para isso, ele funciona como entretenimento e poderia lutar contra o racismo de outra forma, como por exemplo, tendo em sua equipe de produção mais pessoas negras.

Então o que acontece no BBB não pode ser entendido como um recorte do mundo exterior. A análise tem que ser mais ampla e as redes sociais só jogam contra isso. Elas estão cada vez mais repletas de pessoas com discursos vazios e sem profundidade que fazem tudo parecer uma partida de futebol. Essa cultura do certo x errado; do melhor x pior; da fada sensata e do cancelamento servem apenas para acirrar os ânimos e dividir quem devia lutar em conjunto.

Babu e Thelma são negros, estão num reality show, mas não são muito diferentes das pessoas que encontramos aqui fora no dia a dia. Devemos parar de dizer quem é mais negro, menos negro por militar de um jeito ou de outro. O importante é todo mundo junto na luta contra o racismo, seja falando sobre o assunto, nas ruas levantando bandeiras ou ocupando espaços que, normalmente, nos são negados. O importante é ter a consciência racial e colaborar para o fortalecimento do todo.

Ivson Henrique
Radialista de formação, tem seu legado baseado em produções relacionadas a questões étnico-raciais. Amante de esportes e produções audiovisuais que tratam sobre filosofia, existencialismo e tempo.

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