O ano no Brasil tem o costume de começar apenas depois do carnaval. Aquela festa da felicidade, onde todos se divertem e acontece aquilo que o brasileiro mais se orgulha: a mistura dos povos. Não diferentemente deve acontecer em Salvador, um dos maiores pólos carnavalescos do Brasil, terra do Axé Music. 

O carnaval soteropolitano tem uma história de blocos carnavalescos de rua, trios elétricos, vários ritmos e vários sons. O Axé mesmo surgiu de uma grande mistura musical, tendo como diferencial a utilização de instrumentos de cordas elétricos, vide o início do movimento com os músicos Dodô e Osmar na década de 50 e a criação das chamadas Guitarras Baianas, nada mais do que guitarras elétricas que ritmavam canções dançantes oriundas de outras representações culturais, como o frevo. 

O termo Axé vem do iorubá e significa energia, poder ou força e está presente nas religiões de matriz africana e representa a energia do Orixás. Daí podemos ter uma noção da origem do ritmo que embala o carnaval de Salvador: etnicamente negra. Caetano veloso, símbolo da chamada Música Popular Brasileira (MPB), afirma que o movimento do Axé “foi um gesto de afirmação do preto baiano” uma clara conotação político social do movimento.

Carnaval de Salvador, anos 90. Trio de Dôdo e Osmar.

Evidentemente que o ritmo sofreu com a marginalização e o preconceito sutis tipicamente tupiniquins, mas também era alvo de críticas pesadas com relação às letras, a dança e a chamada qualidade musical. Guardadas as devidas proporções, um pouco do que acontece hoje com o Funk, coincidentemente ou não um movimento periférico. Hoje o Axé, não é só mais Axé, é Axé Music, e está em outra fase, possui outros ícones e está cada vez mais distante das origens. Foi industrializado, foi mercantilizado, foi embranquecido, foi apropriado. 

O carnaval de Salvador, outrora popular, foi totalmente invadido pelos camarotes e pelos circuitos de trios com abadás a preços claramente inflacionados. O Axé não vive os áureos tempos que viveu na década de 90, hoje é tratado como um ritmo brasileiro, midiatizado e aceito socialmente. Mas para isso acontecer ele precisou sair da periferia, precisou de certa forma ser elitizado, precisou ser embranquecido. Precisou ter ícones que sejam mais aceitos à sociedade brasileira. Letieres Leite, músico negro baiano líder da Orquestra Rumpilezz, afirma que “a decadência da música baiana vem porque parou de sugar da música preta os toques de candomblé, de onde surgiu tudo.” No carnaval de 2018 a previsão é que muitas atrações dos camarotes e dos próprios trios elétricos sejam de fora de Salvador. O Axé perdeu espaço para o Sertanejo Universitário, para o new pagode e para o new Forró. Agora aparentemente não sabem como encontrar as raízes, isso que ocorre quando se apaga as origens. 

Hoje quem tem o direito de se divertir ao som dos trios elétricos, pulando na segurança das cordas que separam os foliões dos “baderneiros” não são aquelas pessoas que originalmente criaram o ritmo, que brincavam e dançavam ao som da guitarra elétrica. Quando o ritmo lhes pertenciam eram chamadas de marginais, questionavam o seu gosto musical. Na época de surgimento do Axé, são relatados casos em que negros eram presos apenas por utilizar cabelos rastafári. Não muito diferente do que acontece agora, mais de 60 anos depois, com a utilização do chamado “Manual da Tatuagem” nos treinamentos de policiais civis, militares e guardas municipais. Neste manual há a tipificação das características dos criminosos, comportamento, roupas que vestem e claro, a cor da pele. A mesma cor que é usada para qualificar ou desqualificar um ritmo musical e que vai precisar ser acionada se não quiserem que o ritmo tão brasileiro né, que une tanto as pessoas 

Camarote do carnaval de rua de Salvador, 2017.