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Atletas negros e o dilema do posicionamento

Estava bem reflexivo esses dias depois de terminar de assistir ao documentário The Last Dance (O último arremesso, para o Brasil) da Netflix. A produção retrata a última temporada junta do time do Chicago Bulls, vencedor de 6 títulos da NBA (Associação Nacional de Basquetebol) e que contava com o maior jogador da modalidade de todos os tempos, Michael Jordan. Na verdade, muito mais do que falar dessa última temporada do time, o documentário é um resgate de toda trajetória do astro da NBA, desde sua entrada na Liga, até o arremesso final em 1998 – nem tão final, porque ele acaba voltando a jogar em 2001 e encerra, pela terceira vez, a carreira em 2003 no Washington Wizards

Mas enfim, o que me chamou atenção nesse contexto da carreira do Jordan é um fato que aconteceu em 1990. Apesar de ser natural do Brooklyn, Nova Iorque, Jordan foi, muito jovem, viver na Carolina do Norte e lá se estabeleceu com sua família. Então, naquele ano estava acontecendo a corrida para o senado norte americano, e o Estado da Carolina do Norte tinha dois candidatos, o democrata Harvey Gantt, que tentava ser o primeiro senador negro eleito pelo Estado, e o republicano Jesse Helms, um candidato com discurso tão racista que pregava segregação nas escolas, isso nos anos 90. 

Havia então um clamor da comunidade negra e até um pedido pessoal da mãe de Jordan para que ele apoiasse Harvey, mas ele não o fez, pelo menos não com posicionamento, ou aparecendo ao lado do candidato. Segundo Jordan, ele apoiou financeiramente a campanha do democrata. Mas foi só. Harvey Gantt acabou perdendo a eleição. Não estou aqui culpando Jordan, longe disso. A Carolina do Norte é um dos estados mais conservadores dos EUA até hoje e o Helms foi senador do Estado até 2003. A questão aqui é outra.

Jordan, como tantos outros atletas negros de destaque, muitas vezes se omitem de se posicionar em temas relacionados ao racismo, salvo raríssimas exceções – consigo lembrar aqui do boxeador Muhammad Ali, no passado; e hoje em dia, do astro da NBA Lebron James, que são grandes referências na luta contra o racismo e a opressão. Claro que temos outros atletas que possuem discursos fortes e necessários sobre o tema, mas aqui eu quis restringir isso para esportistas com desempenhos fora da curva e com fama global, como era o caso de Jordan, maior jogador de Basquete de todos os tempos.

Muhammad Ali. Imagem: TVI 24

O que se espera desses grandes astros do esporte é que eles aproveitem da fama, da visibilidade e da influência que têm para dar voz a causas que envolvam as questões raciais. Lá em 1990 talvez fosse preciso que Jordan falasse algo, para deixar claro, que eleger um candidato declaradamente racista era um erro. Já pensou alguém com a força dele, o espaço na mídia que tinha, se posicionar? É claro que não garantiria nada, mas é importante marcar esse território. Não precisaria apoiar declaradamente Gantt, mas ele poderia usar de diversas artimanhas discursivas, preferiu o silêncio. 

Jordan pensou unicamente como uma marca, não como um jogador ou uma pessoa negra. Ele agiu pensando no que aquilo atingiria sua marca, seu legado financeiro. Não podemos dizer que ele estava errado, muita gente faria igual. Mas o fato me chamou atenção por não ser qualquer um, por ser ele. Como me chama atenção os posicionamentos do Pelé, maior jogador de futebol da história, negro, mas que nega o racismo e muitas vezes critica quando um jogador negro toma algum posicionamento. 

Imagem: Santos Futebol Clube / Divulgação

O que Pelé faz é nocivo demais à luta antirracista. O que Jordan fez também prejudica. Quando Neymar, maior popstar do futebol atual, diz que não se acha negro, joga muito contra todo o movimento. Eu tento refletir e relativizar o papel que eles realmente têm em tudo isso, se valeu mesmo a pena para Muhammad Ali fazer o que fez. Mas eu vejo em Lebron James, maior atleta de sua geração, fazendo tanto pelos negros e com um discurso tão ativo que no fundo eu penso que esses outros poderiam fazer mais.

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Por exemplo, já aposentado e coroado maior jogador de todos os tempos, Jordan começou a se posicionar mais com relação ao racismo nos EUA. Criticou abertamente o ex-dono do Los Angeles Clippers, Donald Sterling, que foi obrigado a vender sua equipe por ter declarações racistas vazadas para imprensa. Além disso, em seu livro intitulado “Michael Jordan: The Life” (“Michael Jordan: A Vida”, numa tradução literal), o astro revela ter sido suspenso na época da escola por atirar uma garrafa de refrigerante numa menina branca. Segundo o jogador, naquela época a Ku Klux Klan era muito forte na região da Carolina do Norte e por isso ele tinha uma relação muito conturbada com pessoas brancas. 

Capa do Livro Michael Jordan The Life. Imagem: Talent Sport

Para mim, isso deixa claro que Jordan optou pelo silêncio no episódio ocorrido em 1990, mas me fez pensar que talvez ele não quisesse se envolver na questão política Democratas x Republicanos, não sei. Apenas ele sabe. Mas o que me deixou pensando foi que atletas como ele, como Pelé, como Neymar poderiam fazer mais pelos jovens negros na questão da formação cidadã. Todos eles têm inúmeros projetos sociais, isso é um fato. Mas seus pensamentos mercadológicos os impedem de serem mais do que são e de fazerem mais diferença na vida de milhões de pessoas.

Isso encerra por aqui mesmo, porque já está ficando longo e se trata apenas de um devaneio que tive vendo The Last Dance, inclusive uma ótima indicação de documentário. Assistam e conheçam um pouco da história de Michael Jordan e do atleta impressionante que ele foi.

Imagem: Netflix / Divulgação

Ivson Henrique
Radialista de formação, tem seu legado baseado em produções relacionadas a questões étnico-raciais. Amante de esportes e produções audiovisuais que tratam sobre filosofia, existencialismo e tempo.

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