fbpx
Início Matérias Amarela não, mulher negra

Amarela não, mulher negra

Amarela. Era assim que meu primeiro namorado me chamava carinhosamente. Eu tinha 15 anos e ele 18. Um dia ele me explicou: “sabe, você não é branquinha, e nem pretinha, você tem essa cor meio desbotada e por isso eu te chamo assim. Mas é com carinho, tá?!”. E, durante muitos anos da nossa relação este foi meu apelido. 

A infância foi um período confuso para mim, eu fui criança durante os anos 90 e isso para mim, quer dizer ter vivido o império loiro televisivo das rainhas dos baixinhos – a Xuxa – ou Angélica ou Eliana – Eu não parecia com a Barbie, ou com a Xuxa, ou com a Loira do É o Tchan e não via ninguém parecida comigo na Malhação. Quando se é adolescente a gente passa por todo aquele processo de afirmação e construção de identidade e referenciais de beleza. Ter assimilado a falsa ideia de democracia racial insistente no período escolar, me fazia justificar, por exemplo, este apelido tosco e extremamente racista usado pelo meu adolescente namorado negro.

Por bastante tempo ser morena clara, foi algo comum e familiar para mim, pois branca eu estava certa de não ser. E, para não perder o apelido carinhoso, e satisfazer a um modelo de beleza não negra, me impus à rotina semanal de alisar e chapear meus cabelos ditos “volumosos demais”. Toda semana a cada sábado eram cerca de 4 a 6 horas na casa da cabeleireira. Mainha dizia: “seu cabelo não é ruim, minha filha, mas é muito fofo e volumoso”. E a igreja dizia: “arrume seu cabelo para vir adorar a Deus bonita”.

Eu tinha muito medo de não conseguir manter aquele padrão de beleza. Durante 10 anos eu não convivi com meu cabelo no estado natural. “Alva Mais Que A Neve” é um hino que provoca a crítica da ideologia da brancura, de que para ser Amada por Deus eu necessitaria ser outra, uma outra branca E entre essas e outras pedagogias culturais os apagamentos dos traços do meu corpo negro foram sendo naturalizados para que eu me tornasse aceitável.

Que ironia… este mesmo corpo que Deus te deu e fez! Corpo à imagem e semelhança do Criador.

É difícil para muitas pessoas evangélicas aceitarem que há racismo na igreja. É declarar publicamente seu pecado e sua falha histórica com o povo negro e africano que para cá foram trazidos em escravização. Mas a igreja assimilou profundamente aquela velha ideia da democracia racial e se acomodou com ela. A igreja evangélica brasileira é preta e feminina, em sua maioria, e mesmo quando não se nomeiam suas práticas racistas como tais, ela permanece lá fazendo vítimas e perpetuando desigualdades.

Eu me lembro de muitas irmãs, que relatavam no grupo de oração as humilhações que sofriam nos seus trabalhos domésticos, a exaustão a que eram submetidas em longas jornadas por baixos salários, a serem julgadas pela “sua aparência” na “seleção de trabalho”, ou em conflitos de comparações internos na igreja sobre famílias mais estruturadas contra famílias negras desestruturadas, e por aí se seguiam tantas e tantas denúncias que eram traduzidas apenas como problema moral individual e não como problema sistêmico. Até o fato de eu ser chamada de Amarela ilustra bem o que se passava na cabeça de um jovem negro periférico no começo dos anos 2000.

Então, quanto tempo leva para deixar de ser aquilo que te tornaram? Já disse o Bom Mestre: conhecereis a verdade e ela vos libertará.

Até mesmo quando entrei na universidade pública e com o acesso às discussões sobre relações raciais, racismo e sexismo, foi muito difícil deixar de ser a “Amarela”. A gente lê, debate, o confronto atravessa nossa mente e atravessa o nosso peito, mas a nossa subjetividade está tão enraizada naquela crença de inferioridade que o sentimento de impotência te vence por várias vezes. 

Quando eu assisti ao vídeo da Nataly Nery no TEDx sobre a “A mulata que nunca chegou” eu consegui encontrar uma reflexão que me acolhesse para além desse “não-lugar” social que me foi imposto e do qual também foi vítima meu adolescente namorado negro.  Deixar de ser a “Amarela” e me tornar Mulher Negra foi reencontrar meu caminho na verdade e nem por isso um caminho mais fácil. 

Ser de mim mesma é um aprendizado novo e diário, do tipo: o que posso aprender sobre mim mesma hoje? Posso aprender que mesmo quando for vencida pelo cansaço das lutas, haverá mãos dadas às minhas para me reerguer e essas mãos também serão mãos negras.

Eu sublinho a importância da força das afetividades sadias da coletividade e da comunidade nesse meu processo. É como falou Joice Berth sobre o empoderamento como um processo poderoso de simbiose entre o individual e o coletivo. Foram necessárias muitas mãos para me manter firme no início. Pois quando eu decidi quebrar os ciclos das violências que eu sofria foi como uma fuga. A fuga da casa grande, a fuga do sistema. Essa fuga exigiu de mim coragem, mas sobretudo, exigiu acolhida e suporte das pessoas que me acompanharam. Pessoas essas que foram mulheres negras e até alguns homens negros que se arriscaram para que eu chegasse salva do outro lado do rio. 

E sim, do outro lado do rio como retratado no filme biográfico da Harriet Tumblr. Sua trajetória poderosa de sonhos, persistência, libertação individual e coletiva revela como é possível ressignificar a fé e os seus sentidos de existência e luta. Contra todas as probabilidades, ela escolheu a liberdade e conseguiu salvar centenas com coragem e fé.

Sem uma rede de apoio eu não teria conseguido superar a situação de sofrimento que eu vivia naquele momento. Foi no calor dos afetos das minhas amigas negras que as feridas mais urgentes foram tratadas e a minha negritude floresceu. Foi sendo cuidada com correspondência e com verdade que a “Mulher Negra” renasceu.

E, esse é o meu caminho nos últimos anos, em passos lentos, mas constantes. O caminho do florescimento de Vanessa, Mulher Negra que ressignifica sua fé e sua autoconfiança dia após dia.

Por Vanessa Barboza

Obirin
Nasci da ideia de disseminar e aproximar as ações de grupos e pessoas que estão na luta pela igualdade racial.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.