É comum mulheres fazerem planos, desde pequenas, para o casamento ideal. Com vestido branco, cerimônia, recepção impecável e um marido lindo, bondoso e respeitador. A maioria das meninas já passou pela fase de colocar um lençol na cabeça e fingir que é a noiva, de idealizar o homem perfeito que passaria o restante dos dias ao seu lado.

Mas o que todos enxergam no fim desse filme é uma mulher de pele clara, seios tímidos e boca fina no altar. A mulher da pele negra, por vezes, é apenas mais uma das convidadas. Isso quando não está na cozinha, preparando o buffet para aqueles que se emocionaram com o final feliz da mocinha que encontrou o homem ideal para apresentar a sociedade.

Solidão da Mulher Negra

Imagem retirada de: http://cidadaniadiversidadeetnica.blogspot.com.br/2016/06/a-solidao-das-mulheres-negras.html

As entranhas dos costumes do homem, independente da cor, está habituada a algo que vem sendo, ainda que timidamente, desconstruído. Mulher branca é para casar, mulher preta, para o sexo.

Esse pensamento, ainda tão corriqueiro, acabou se firmando até dentro da cabeça das mulheres negras. Não é incomum ouvir relatos de mulheres afirmando que não casou porque o homem nunca assumiu compromisso e por isso desistiu do sonho de casar. É verdade que a felicidade não está condicionada a encontrar um marido, construir uma “família tradicional brasileira”. Ela pode ser feliz sozinha, com uma companheira, com uma filha ou filho. A mulher  decide o que é melhor pra ela, a problemática está em como os homens enxergam a mulher negra.

Mas por que será que isso acontece? Se levarmos em conta os fatos históricos, na época da escravidão, era comum os senhores de escravos utilizarem as escravas como objetos sexuais para satisfazer seus desejos, uma vez que a sua esposa, mulher branca, tinha a função de procriar e cuidar dos afazeres da casa, ou seja, observar o trabalho da criada, quase sempre uma negra. Praticar uma posição sexual diferente com a esposa? Nem pensar! Esse tipo de prática era reservado para as mulheres negras, já que elas estavam acostumadas, sabiam fazer direito e era mais uma de suas obrigações.

Sendo assim, porque, inclusive hoje, os próprios homens de pele preta excluem as negras de suas relações? A única explicação, na minha mente, é o princípio da branquitude, fruto da exaltação de traços físicos eurocêntricos na sociedade e no imaginário social brasileiro. Existe um padrão estético que privilegia a mulher branca, e que serve como trampolim social para o homem negro.

Já ouviu falar na expressão “homem palmiteiro”? Conheci o termo durante uma palestra que falava sobre a solidão da mulher negra. Descobri que se refere aos homens negros que preferem as mulheres de pele branca e renegam e/ou envergonham-se das de pele preta.

Solidão Negra

Imagem retirada de: http://todosnegrosdomundo.com.br/tag/solidao-da-mulher-negra/

Virou cultura, está entranhado. Mulher de pele branca é para casar, ter sonhos com véu e grinalda, ter filhos e ser bem vista perante a sociedade. Mulher de pele preta é para o sexo, para o descarte, o uso diante da vontade do homem, ter sonhos com véu e ver outras chegando lá. Filhos? Ou aborta ou não tem pai.

Mas quem ditou que tem que ser assim? A cultura branca. Apenas. Aquela que insiste em predominar na sociedade. O levante negro acontece, mas ainda é lento. O feminismo, precisou se dividir para que essa pauta e outras que atingem as mulheres negras fosse colocada em discussão.

A pregação é de igualdade, mas até nos excluídos essa pregação às vezes falha.