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Sim, eu ia deixar meu cabelo crescer, mas agora não vou mais. A mulher negra e seus cabelos

Acho que todos os dias penso sobre a liberdade do cabelo curto. Melhor ainda, na liberdade da cabeça careca. Enquanto estou na semana pré-corte do meu cabelo, aconteceu a cerimônia do Oscar e um caso de piada com uma mulher careca, a atriz Jada Pinkett Smith, também esposa do Will Smith. Tão deslumbrante como quando tinha cabelo, Jada está careca depois de aceitar esse corte como sendo o melhor por conta de uma doença, alopecia.

 Mas isso não a deixa menos bonita ou feminina, pelo contrário. Mostra que, com cabelo ou não, a mulher negra é bonita com qualquer estilo capilar. Mas não é sobre isso que quero falar. Foi só um fato que coincidiu com a minha decisão de cortar o cabelo à máquina três novamente. 

Engraçado constatar que, o que mais me perturba em relação a essa decisão é pensar no que as pessoas vão achar e falar sobre. Eu tenho plena consciência da minha escolha e da liberdade que isso vai me causar. Não tenho mais paciência para lavar e cuidar de um cabelo grande. Isso é fato. Cada vez que eu faço um afropuff meu cabelo fica ainda mais cheio de nó. Todos os dias suo em profusão depois da caminhada matinal e lavar o cabelo a cada exercício não é uma opção. 

É preciso pentear. Dividir em várias partes e passar creme de cabelo de uma maneira que os cachos durem o máximo possível. O tempo dedicado a essa tarefa se tornou cansativo para mim. E eu tentei, Deus sabe que eu tentei. As pessoas ao meu redor também sabem que eu tentei ser a rapunzel do cabelo cacheado. Por lindos dois anos, um recorde para mim, deixei meu cabelo crescer sem nenhuma interferência da tesoura. Acho que foi o máximo depois da transição capilar que passei, lá por 2014. 

E ele cresceu rápido. É impressionante ver as fotos e notar a rápida evolução do tamanho. Mas eu não aguento mais: o calor, ter que lavar, a coceira, os problemas recorrentes de caspa por conta de resíduos. Nem cogitar fazer penteados e tranças me alegra mais. Tem a questão do dinheiro, do outro cuidado que se deve ter e mais um monte de preocupações. 

Eu posso escolher ser preguiçosa em um aspecto da vida, né? Pois eu escolho ser preguiçosa com o meu cabelo. Não vai interferir na vida de ninguém, nem fazer mal a qualquer ser humano na terra. E ainda vai me ajudar a ter praticidade no meu dia a dia. Huum, que delícia. Uma bela escolha sobre as lutas que se deve travar nessa vida. 

Mas voltando ao ponto lá em cima:  fiquei pensando, novamente, no que as pessoas iriam pensar: mas Lucy, tu não ia deixar crescer? mulher, já cortasse de novo? não ia deixar crescer? por que cortou? não ia deixar crescer? Estava melhor antes! tu não ia deixar crescer? já estava tão grande! tu não ia deixar crescer? Eu gostava mais do teu cabelo maior, tava um black tão lindo! tu não ia deixar crescer?

SIM, EU IA DEIXAR CRESCER.
AINDA POSSO DEIXAR CRESCER.
EU DEIXEI CRESCER POR DOIS ANOS!

Mas agora não quero mais deixar crescer. Pronto. É isto. Resolvi cortar, me sentir livre e passar a mão no meu cabelo recém cortado rente ao couro cabeludo. 

Sempre penso que todas as mulheres deveriam ter essa sensação de se livrar do cabelo por opção própria. Sei que, às vezes, as doenças malignas não dão essa opção e o baque na autoestima feminina é imensa. Isso, claro, porque aprendemos a supervalorizar o cabelo como símbolo maior da expressão da nossa feminilidade. 

Mas que coisa pequena, né? Como se a performance do feminino dependesse exclusivamente de um tecido morto. Da primeira vez que cortei meu cabelo super curto, todos me chamaram de corajosa. E nem entendi direito o porquê. Coragem é uma palavra tão forte e deve ser usada em situações de real ação de coragem. Na época, o corte só refletiu uma vontade de mudança geral. 

E não, eu não surtei. Não aconteceu nada de extremo que me fez querer mudar radicalmente. Estou de alta da terapia, mas estou seguindo bem e sã (na medida do possível, vivendo no país em que vivemos). 

Foi só um cansaço mesmo. Comecei a me perguntar qual era o objetivo desse crescimento, o real objetivo. Era eu me ver com cabelo grande? O que mais vende por aí são perucas, laces de mil e um modelos, imensas. Meu desejo de ter um cabelo grande era mais um desejo das pessoas de me ver de cabelo grande. E essa expectativa delas eu não posso sustentar, né? Nem deveria estar me desculpando, mas, sinto muito, gente.

Mudo tanto, e acho que tantas outras mulheres negras também o fazem, porque por muito tempo só conheci meu cabelo de três maneiras: preso em rabos de cavalo ou coques, solto liso, ou solto molhado e seco, mas, esse último, só dentro de casa. 

Os olhares, às vezes mais violentos do que uma fala de “cabelo de bombril”, ficaram tão entranhados em mim que sei que meu cabelo grande natural não me pertence mais, foi tirado de mim pela violência. Mas ainda bem que encontrei meus estilos de cabelo e me sinto bem com qualquer um deles, até o natural. Mas não tão grande, porque essa paciência eu não possuo mais.

Mas é isto, quando você ver uma mulher negra que resolveu mudar seu cabelo, respeite e elogie. Não mencione seu cabelo “antigo” em comparações desnecessárias com o atual. Se ela está se sentindo bem com ele, isso basta. Só para ela.

Lucyanna Melo
Curiosa, faladeira, boa ouvinte e estudante de jornalismo. com bastante caraminholas na cabeça que acabam virando texto ou foto. as vezes eu leio uns livros também, porque o mundo real é meio chato.

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