Recentemente começou com mais uma prova de que o brasileiro nas redes sociais ainda tem muita dificuldade em lidar com a beleza negra. Vários questionamentos surgiram com o anúncio da vencedora do concurso Miss Brasil 2017, a representante do Piauí, Monalysa Alcântara. Até aí tudo normal, pois tratando-se de um concurso é comum que cada pessoa tenha sua candidata favorita ou esteja torcendo para alguém em específico. O que a internet brasileira presenciou, na verdade, foram inúmeros ataques racistas contra a Miss Piauí, atual Miss Brasil.

Contextualizando os ataques com a história do concurso Miss Brasil, podemos encontrar resposta no passado, que explica um pouco esse “estranhamento” dos brasileiros em relação a vitoriosa ser uma mulher negra. O concurso traz em seu site que “a Miss Brasil precisa representar a voz e a alma da mulher contemporânea, que busca cada vez mais o respeito, os direitos iguais e o valor de suas opiniões. Ser bela, carismática e simpática é essencial. No entanto, é preciso saber usar essas qualidades para transformar, engajar e fazer a diferença. A personalidade da Miss, deve transcender em suas atitudes, porque a coroa não representa somente seus aspectos físicos, mas também a sua responsabilidade e o compromisso em inspirar as pessoas a se tornarem seres humanos melhores para o mundo”.

Em 61 edições o concurso premiou apenas três mulheres negras. A primeira em 1986, Deise Nunes, a segunda ano passado, Raissa Santana e a terceira este ano, com Monalysa. Isso equivale a menos de 5% de candidatas negras eleitas como “a mulher que melhor representa o Brasil”. Primeiramente, não existe isso de uma cara do Brasil, o Brasil tem vários rostos, nenhum conseguiria representar esse tal rosto nacional. O problema, porém, é mais profundo, acontece quando o rosto eleito para representar é negro e causa tanta revolta.

(Imagem: Joshua Roberts/Reuters)

Até que ponto o burburinho criado nas redes sociais reflete a essência de uma sociedade? Pode ser que isso ocorra, pode ser que não. Talvez essa onda de ódio sempre tenha existido, só que estava silenciada pela falta de lugares para expor. Nos últimos dias temos presenciado marchas racistas nos EUA, a volta (não que tenha acabado) da KuKluxKlan (KKK) e um grande movimento de perseguição as minorias norte americanas.

O problema americano é diferente do brasileiro? É sim. Por que? Porque nos EUA o racismo não é velado, ele é exposto, é debatido, é combatido. No Brasil o racismo é invisível, é escondido, está nas pequenas ações, é travestido de humor, de opinião. Por isso é tão difícil de combater, como toda doença causada por pequenas feridas, que vão se acumulando com o tempo, até que estouram, causam infecções. Aquele comentário sobre o cabelo cacheado, sobre o blackpower, sobre cotas que antes eram feitos entre poucos, para poucos, agora são disseminados nas redes sociais para milhões de pessoas e vão encontrando mais adeptos, caminhando para um futuro com marchas racistas que parecem estar distantes, mas estão mais próximas do que aparentam.

O padrão de beleza imposto, também por esses concursos de misses contribuiu, contribui e vai continuar contribuindo para uma ideia de beleza magra, branca, de cabelo liso. Quando esse padrão não é seguido vem o estranhamento. Aquele lugar de rosto que representa o Brasil não pode ser negro, porque não é bonito. É isso que essas mensagens dizem, é isso que uma parcela da população pensa. Até quando?