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A gente trabalha em dobro

É comum ouvir as pessoas dizendo que as coisas acontecem mais fácil, e melhor, para quem é homem, branco e rico. E isso não é à toa. Isso é enraizado. Desde a época dos escravos, quando deixaram de ser “escravos”, mas não discriminados.

Vem desde a época em que, alforriados, os negros não conseguiam arrumar emprego. Por serem negros. Por não terem oportunidades. E, por conta da cultura e discriminação, nunca terem aprendido a fazer nada.

Essa discriminação escanteou os negros, os mandando para fora das cidades e criando as periferias. Que persistem até hoje. E que, apesar de também abrigar alguns poucos brancos pobres, é dominada pelos negros, que continuam sem oportunidades, sem empregos e sem aprender. Por serem negros.

E, por serem tudo isso, precisam trabalhar mais, estudar em dobro e bater em mais portas do que os brancos para conseguirem uma oportunidade. E ainda assim, mesmo com mais capacidade, recebem menos e sofrem o peso da cor onde passa.

Talvez por isso andemos em bando. Como diria Djonga

“Playboy se junta hoje em dia, mano, e quer ser bonde

Tô lutando pra favelado junto ser empresa”

já que, por serem negros e andarem juntos, as bolsas são apertadas com mais força junto ao corpo e a escolha da calçada é sempre a oposta.

Isso me lembra uma figurinha que vi recentemente nas redes sociais. Um homem negro segurando a mão de uma criança, também negra, indo. Uma mulher branca vindo pelo lado oposto segurando a bolsa de forma defensiva. A frase dita pela criança diferenciou entre as redes, mas o sentido é sempre o mesmo: “não queremos o que é seu”. Queremos o que é nosso.

Os brancos do Brasil, hoje são porque os negros de antes os fizeram ser. A riqueza da aristocracia medieval que permeia a “alta sociedade” se vale dos dinheiros dos antigos que foram conquistados pelo trabalho suado dos negros e negras que ocupavam as senzalas, os cafezais, os minérios.

Nada é deles, nunca foi. Nunca saíram de dentro das suas casas grandes e conquistaram aquilo que possuem. Ainda hoje, é assim. E vemos isso na disparidade dos salários contratuais. Homem branco ganha mais que homem negro. Mulher negra, então? Nem se fala. Mas, muitas vezes, trabalham mais, bem mais. Trabalham em dobro para conseguir aquilo que é dado de mão beijada ao branco.

Crédito: Pexels

O progresso existe, não levamos mais tanta chicotada quanto antigamente. Mas também existe. E pura e simplesmente por sermos negros, como era antes. Não era para ter erradicado esta prática? Por que ainda nos violam?

O comentário da semana é sobre aquele cantor de sertanejo que agrediu a mulher grávida e pegou uma sentença de apenas 18 dias. Fez um vídeo debochando. Mas ele pode, ele é branco e rico. Rafael Braga não teve a mesma sorte. Ele foi condenado à 11 anos de prisão por ter sido flagrado com 0,6 gramas de maconha e 9,6 gramas de cocaína. O material apreendido? Não se sabe mais.

Procurando sobre o caso de Rafael, apareceu outro de um jovem, apreendido com 130 kg de maconha, uma pistola 9 mm e 199 munições de fuzil calibre 7,62 de uso exclusivo das forças armadas. Ele foi preso em 8 de abril de 2017 e já, em 17 de julho, conseguiu o direito de aguardar o julgamento em liberdade, enquanto Rafael continuava preso.

O nome desse outro jovem? Breno. Breno é branco, filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul, uma desembargadora. Breno conseguiu se safar das grades alegando distúrbio psiquiátrico. Nem a isso o preto e pobre tem direito, alegar problemas mentais.

Branco tem muito fazendo pouco. Preto tem pouco fazendo muito. Preto trabalha em dobro, até dentro das penitenciárias. E quantos Rafaéis estão aguardando julgamento dentro de celas superlotadas? Escassas de brancos.

Débora Eloyhttp://www.obirin.com.br
Por definição: companheira, caridosa, desenrolada, amorosa, avexada, doce, paciente, disposta. Por autoria: estabanada, carente e abestalhada

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