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(0)80(0)

Tenho que te confessar o terror de cada dia, a existência infeliz, a eternidade em pesadelo. Sorrir com um copo de café na mão, acordado às três da madrugada, com a porta escancarada. Descrevendo as mais sublimes memórias em minha mente lacrimosa, à espera de que meu temor não me petrifique ao ponto de minhas lágrimas contaminarem meu café. Tenho que imaginar todos os dias as mortes dos meus, preso no agora e no ontem. Tenho que para sempre acordado ficar. Extasiado, petrificado, enfurecido, endiabrado, voraz: loucura vulcânica em erupção. Tochas em chamas extrapolam minha visão. Quero queimar o inferno. Não há nada mais potente que um eu sendo enfurecido. 

Exatamente. Isso mesmo, caro senhor. Não quero um estar passageiro, mas uma profunda ruptura, um contínuo: o ser. Felizes os lusófonos pela divisão sísmica entre o ser e o estar. Feliz sou pela palavra me convocar para causar tremores com minha ira. Não quero lembrar do rosto daqueles de quem escrevo porque muitos os antecedem. Rostos tragados pelas rachaduras e demolição de um tipo específico de ser. Rostos que aguardo, à entrada, em minha humilde e solitária residência, uma casa vazia, preenchida por escuridão e lamentos, pela partida de um ser retinto que não mais é. NÃO! 

Para eles, és uma expressão gráfica de um objeto matemático abstrato, utilitário à descrição de nossos corpos: uma quantidade, ordem ou medida. Para eles, tu era mais um número, mais 1. Mas como bem sabemos, tu era 0800. E digo isso sem ferir sua memória, pois na pobreza nos fundamos. “O pobre é sábio porque conhece a experiência da escassez”. Conhecemos o oculto, as entranhas da rua e de nossos corações. Mas como posso saber que vivo para morrer? Que vivemos para o fim? NÃO! Somos além morte. Somos um ser de muitos, que está triste. Não lembrava do teu nome, mas posso imaginar o dia que construísse sua casa.

Era um homem que colocava o chapéu, sorrindo, dizendo adeus. Mastigava um chiclete marrom nos abraçando e, em meus sonhos, tu me olhava. Conseguiu um terreno na comunidade. Seco e morto, era um pedaço de terra infrutífero. Mas como bem sabemos, eras 0800

Tu conseguiu  construir pedras. Estruturas fortes o bastante para suportar 04 corpos… e  depois 06… e finalmente 08… construísse uma família de sobreviventes. Tento manter meus olhos atentos neles para não cair em um poço profundo de cólera, aquela que paralisa o corpo e não nos permite resistir, pois estamos gélidos com o fogo em que nós habita. Quero queimar o inferno. Não quero justiça, pois esta que aqui está não nos serve. Quero não só sobreviver, mas viver sabendo que não serei morto. Nem os meus.

Vejo, em uma fantasia, os sorrisos de uma família que viajava para a alegria. Sorrisos contentes de quem não percebeu ainda o luto contínuo de uma terra regada a sangue e suor. Vejo os sorrisos, o vigor, o calor, a paz, a amada paz. Mas preciso queimar o inferno. Não aguento mais morrer todos os dias, pouco a pouco, pela queda de mais um. Eu sou muitos e não me permito nada mais, nada menos, que uma revolução polifônica.

Quero olhar para sua casa construída em pedras e saber que tudo fazia, porque tudo podia. Eras a sabedoria das ruas encarnado em samba, meu caro e desconhecido amigo. Nunca pude ouvir sua canção, mas às minhas narinas sinto um suave som. Não vou contar os 80 tiros. Não serei novamente alvejado. NÃO! 

Vou me permitir imaginar uma fantasiosa memória onde, na casa que construímos, o chão era de ouro e cristal. Vou me embebedar em religião e fantasia, como outros de nossos irmãos, para sobreviver a esse terrível terremoto. Tu eras 0800. Eras a carne mais barata e descartável, publicizada e usada para o nosso temor. Até nossa morte não é poupada de uma segunda morte e somos números sem rostos.

E sempre estarei bebendo café, aguardando a tua chegada. Estou na sala e dela não saio. A casa está vazia, escura. Ela revela o quarto com luz acesa, que não se deve entrar. Sou 8 ou 80, céu ou inferno, louco ou são. Procuro achar o espaço entre o 0 e o 8 onde fosse apagado. Sonho com os meus dentes caindo, pressentindo a morte, que é iminente. Sonho com a delegacia em chamas. Somos 0800.

Me ponho no lugar de imaginar, então, tua casa e teu sorriso. Imagino o dia onde tuas lágrimas escorrem do teu rosto ao chão do quintal, fazendo minha fantasia de um chão de ouro e cristal se desfazer, afundando o solo arenoso, abrindo uma cova para a esperança, que parece aos poucos desaparecer neste país. Nesta cova, reside a fundação da tua casa e ali enterram seu filho, ali queria ser enterrado assim como os meus ancestrais. Nossos corpos abalariam a tua casa e todo nosso território. 

Nesse cenário, de loucura vulcânica em erupção, futuros eus viveriam. Mas não posso esquecer que isto aqui é só um texto, de que uma foto só apresenta uma realidade, de que um filme é uma experiência. 

Nosso terremoto só acontecerá, quando todos os quintais desta nação afundarem e desfazermos nossa finitude de ouro e cristal. Temos que lembrar que estamos a sorrir com um copo de café na mão, acordados às três da madrugada, com as nossas portas escancaradas à tua espera Evaldo Rosa dos Santos. Descrevendo as mais sublimes memórias em nossas mentes lacrimosas, à espera de que nosso temor não nos petrifique ao ponto em que nossas lágrimas contaminem nosso café. Temos que para sempre acordados ficar. 

Nós escrevemos com nossa mente o mais profundo nós, desde que caçávamos e escorríamos  d’água. E sempre estaremos, depois de beber lágrimas e café, aguardando a tua chegada, sentados olhando a porta, evitando o quarto com luz acesa, que não se deve entrar. Fazem 2 anos e continuo à procura da resposta para a equação (0)80(0), a equação sísmica da tua morte. Apago dois zeros, esperando, em um contínuo gerúndio, o terremoto que virá.

Lucas Daniel
Lucas é fotógrafo, produtor cultural, roteirista e escreve sobre narrativas na internet centralizando as relações étnico raciais como estruturantes e estruturas da realidade social, política e cultural brasileira. Ele procura com as produções e os textos desvendar e jogar luz sobre as iniquidades sociais e raciais a partir do conceito de justiça social ligado a interdisciplinaridade entre psicanálise e comunicação.

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